Querido diário?

Com um título desses, só é possível esperar um texto autobiográfico. E foi o que aconteceu, aí embaixo.

Close na estátua de Júlio Cesar, em Roma.


Hoje faltam exatamente 52 dias para minha decolagem rumo à bota e 3 semanas e ½ de trabalho. É quase impossível passar batido pelos clichês, nessa hora. O frio na barriga é inevitável. A dúvida se a coisa que se faz é certa ou uma baita idiotice sempre surge. Por enquanto nem penso no que levar, pois as poucas viagens intra-Brasil que fiz me mostraram que não adianta se entupir de coisas, porque a maioria se mostrará inútil por lá. Porém algumas dúvidas cruciais surgem, como por exemplo, quais 200 e poucas músicas levarei em meu mp3? Tenho o costume de trocar tudo uma vez por mês, e de onde tirarei as outras?

Outra: que livros levo pra me distrair, além de meu mini-precário-dicionário português-italiano italiano-português? Certamente a Bíblia. Escrita pelo Millôr. A Bíblia do Caos. E depois?

Roupas eu não ligo, são apenas panos, e panos se acha no mundo todo. Mas o que me identifica como sendo eu mesmo é o que gosto e provavelmente não terei tão fácil e tão à mão como tenho aqui.

E volta e meia fico parado, olhando para o vazio (afinal, existe o vazio?). Olhando para um ponto inexistente fixamente e lembranças surgem da vida inteira, como quando jogava bola com meus vizinhos e meus primos quando morei em Panambi, como as brigas em que me metia na 5ª série e quase sempre apanhava, pois eu era um dos únicos que não era repetente naquela turma, das gurias que amei platonicamente em Ijuí, das outras que amei já de outra maneira em Londrina, do primeiro porre na 8ª série e o tempo de colegial em que eu e meus amigos bebíamos a noite inteira e andávamos por toda Londrina à noite, sem nunca termos sido sequer abordados por bandidos, coisa impensável hoje em dia.

Lembro de festas e churrascos familiares, no sítio de meu recém falecido avô, as cachoeiras onde eu e meus primos íamos, após umas 2 horas embrenhados - às vezes até perdidos - no mato para achá-las. Lembro dos 6 meses em que morei com meus outros avós, e desconfio até hoje que minha vó não sabe que eu nunca matei tanta aula quanto naquele tempo. A escolinha de vôlei, os primeiros filmes pornôs que um primo meu conseguia pegar na locadora, o futebol no campinho, os jogos do Grêmio contra o São Luiz, onde vendiam o cachorro-quente mais sem-vergonha (um pão com uma lingüiça assada), porém inimitável. Lembro de lampejos do breve mas intenso ano em que morei em Caxias do Sul, quando quebrei o dente andando de skate e criava girinos para posterior venda dos sapos, numa sociedade montada com um vizinho com os mesmos 9 anos que eu e, obviamente, nunca deu certo. Nenhum sapo se criou. Lembro da professora da terceira série que era linda pacas, embora eu só conseguisse sonhar que estava caminhando ao seu lado, muito longe do que eu sonharia com posteriores professoras no colegial. Lembro de minhas aulas de inglês, de professoras extraordinárias que tive e que mantenho contato até hoje. Lembro do vestibular que passei e consegui não raspar o cabelo. (Ironia do destino: hoje tenho uma máquina e raspo em casa a cada 2 meses).

Lembro do primeiro beijo? Seriamente, não. Mas lembro da primeira vez, e da primeira namorada. Lembro de quando terminamos, como foi chato e como continuou depois. Lembro dos porres com ela. Lembro das músicas. Lembro de uma série de coisas. Até das últimas frases bêbadas desesperadas ditas no celular. Como disse o grande poeta, cantor e compositor (aliás, o único cantor fanho que conheço), o insuperável Belchior já dizia há algumas décadas: "na parede da memória este é o quadro que dói mais".

Imagino que fim levaram alguns amigos que hoje mal me reconhecem no orkut, mas na minha lembrança se mantêm como quando ainda estava lá, cursando a 7ª série, matando aula pra jogar bola ou ir ao fliperama. É realmente triste, mas totalmente compreensível: para eles, fui apenas mais um que saiu da escola e da cidade, como tantos que o fazem todo ano, a vida deles continuou seguindo mesmo rumo. Pra mim, a mudança foi drástica, geográfica e culturalmente falando, numa idade complicada que é a pré-adolescência, numa cidade no mínimo umas 5 vezes maior que a minha. Obviamente acabei me recolhendo em minhas lembranças mais recentes e por vezes devo ter deixado de viver para relembrar esse passado distante. Mas fico feliz por saber que alguns desses meus amigos ainda estão vivos, o que é bom, considerando o rumo que alguns deles tomaram.

Lembro de festas na UEL, no CCH e no RU, regadas a muita cerveja. Lembro de festas doidíssimas em chácaras distantes, com pessoas estranhas e birutas. Lembro das faculdades, as duas que freqüentei e dos grandes e bons amigos que lá fiz. Lembro dos 2 Intercom que fui, em Salvador e em Porto Alegre. As viagens doidas pra SC no carnaval com outros doidos e as mais recentes, sozinho num camping em Floripa e em Camboriú. Os churrascos, shows e festas. Sobretudo, me lembro sempre das ressacas, a cada nova que tenho.

Tudo aparece como um raio na minha cabeça e torna o porvir mais sofrível, porque repentinamente percebe-se que tudo mudará e as lembranças possivelmente me farão de refém no início. Mas o flashback apenas demonstra que não me arrependo de ter feito essa escolha, nem todas aquelas anteriores. O sofrimento é inevitável, mas é por isso que o homem inventou o álcool. A ficha provavelmente vai demorar a cair, talvez só quando eu parar algum italiano na rua e falar “Scusa, mi può dare un’informazione?”

Sei que tudo que tenho pensado e refletido e sofrido nesses dias é passageiro, assim como do avião eu também sou passageiro (belo trocadilho). Mas o importante serão as festas e culturas diferentes que conhecerei, e todo aquele papo óbvio de viajante de primeira bagagem (hj to impagável).

O nervosismo virá.

Mas para ele, terei uma garrafa de uísque comprada na loja Duty Free!



 

South of no north

"Quando minha mente recobrou a lucidez, eram quatro horas da manhã. Todas as luzes estavam acesas e todos já tinham partido. Eu ainda estava sentado ali. Encontrei uma cerveja quente e a bebi. Então fui para a minha cama com aquela sensação que todos os bêbados conhecem bem: de que tinha sido um idiota, mas também à puta que pariu com isso."

Henry Charles Bukowski - Ao sul de lugar nenhum

Não sei porque não me é estranho isso.


 

Domingo, 13 de Julho

Eu e meu copo de uísque
I am Bill Murray...

Hoje era um dia pra beber. Eu e meu copo de uísque.

A verdade contudo impede. Sexta-feira bebi muito e demasiado rápido. Coisas desse tipo acontecem. Ontem, não fosse uma coca-cola salvadora, não teria sobrevivido das 15h até às 21h. Bebendo.

Chegando em casa, não fossem 2,5l de água antes de dormir, hoje eu estaria terrivelmente em estado letárgico de ressaca acumulada. Ainda assim, hoje era um dia para beber. Eu e meu copo de uísque.

Acordei cedo. O silêncio ao redor, quebrado por vezes pelos pios dos pássaros. Nada fazia sentido. A não ser meu copo de uísque. Que não bebi.

Hoje não fiz muita coisa. Li um livro de contos do Bukowski, o que, por si só, já exige um copo de bebida. Até mesmo um uísque. Fiz um arroz muito sem-vergonha e um bife pra comer. E bebi a coca-cola, sem uísque. À tarde dormi um pouco. Olhava pela janela no horizonte e nada via de interessante. Olhei minha cadela reclusa em seu canto. Acho que ela também precisava de um copo de uísque.

Fucei a internet. Li mais um pouco do Buk, sentado sob o sol das 16h, na grama. Eu e meu copo de água.

Vi um resto do jogo do Grêmio. Uma vitória sem-vergonha. 3 pontos a mais. Desde então ouço aqui neste computador rádios italianas de notícias. Pra acostumar o ouvido. Ontem ganhei uma garrafa de vinho. Sobraram 4 latas de cerveja e um restinho de vodka. A noite caía, ontem. Caiu por terra.

Hoje, jantei às 19h. Jejum de 12h até amanhã de manhã. Regras da minha nova religião. Mas não, esta religião não exige o celibato. Só um copo de uísque.

Daqui a 60 anos, ainda estarei procurando o copo de uísque, pois os uísques são como pensamentos melancólicos. Melancolia de cú é rola. Dizem que em 60 anos os uísques valerão tanto como obras de arte. Lá estarei eu (onde?), a procurar e a me perguntar, como um autômato:

- Em 13 de julho de 2008, onde estava meu copo de uísque?

Acho que a minha cadela bebeu tudo o que restava dele.


 

Um dia como qualquer outro


Olha só mamãe! Sem as mãos!


Poderá parecer piada para alguns, ou uma invenção das mais fajutas este relato, mas juro ser a mais pura das verdades.

Embora muitos saibam que eu não gosto de trabalhar (na minha opinião modesta, o ser humano é um animal como qualquer outro, e animais não trabalham) mas preciso disto para sobreviver, neste dia específico - como na vida de muitas pessoas mundo afora, subjugados pela rotina - estava eu me direcionando ao ponto do busão, vinte minutos a pé da minha casa, que me levaria ao meu destino final uma hora mais tarde e 30 km mais longe.

Chegando ao ponto, como sempre, abro a carteira e retiro o passe de ônibus, à espera do traslado particular até o meu destino final. O que impressiona nos ônibus é a variação olfativa: de manhã cedo um cheiro fresquinho de mulheres perfumadas recém banhadas. Já no final da tarde o odor é, definitivamente, outro. Mas não é por aí que vou.

Estava eu a procurar meus passes, e como é de se imaginar, não os encontrava. Parti então à segunda parte do meu plano, que é gastar dinheiro. Não preciso de muito, só uns 2 reais, umas moedinhas e pronto, lá vou eu para o meu trabalho.

Revirei meus bolsos, minha carteira e todos os orifícios que ela continha e nada. Gastei tudo no final de semana. Féla da puta. Meu horário de pegar o ônibus é extremamente britânico: ao desembarcar estou a poucos minutos do início do trabalho. Um ônibus atrasado compromete a eficiência tão cara aos bancários (isto não é uma piada).

Comecei a pensar e, à medida que pensava, o desespero aumentava. Lá se foi o ônibus. Liguei aos meus pais, mas já estavam longe, demasiado longe, sem possibilidade de se deslocarem tanto para me trazer 2 reais. "Fodeu!", pensei. O caixa automático mais próximo era infinitamente distante. Não tenho como pagar um ônibus, imagina só! Daí me deu o estalo: ninguém pode se negar a emprestar dois reais, sou um cara bem vestido, boa pinta, educado. Poderia até pedir em inglês pra evidenciar que não sou efetivamente um mendigo, mas apenas um bom proletário pego de surpresa na sua rotina estafante, mas que, com sua ajuda, irei de bom grado ao meu destino, fomentar a economia do país e ajudar no desenvolvimento e geração de emprego e renda. Mas ninguém se dispôs a me emprestar 2 reais, nenhuma das várias pessoas que inclusive me encontravam diariamente no ponto de ônibus, nem nos estabelecimentos ao redor. "Just some coins, please, I'm not a beggar!", eu implorava, e nada.

Logicamente todos estes fatos aconteceram em poucos minutos, e em minha cabeça voejavam pensamentos "poderia fazer malabarismos no sinal, mas não tem sinal aqui. E também não sei fazer malabarismo, no máximo com duas laranjas. Mas não tenho laranjas" e me perdia, nervoso, nesses delírios. Foi então que me veio o estalo. O segundo: táxi. Mas se não tenho grana pra pagar um busão, imagina um táxi? E 30 km de táxi? Lá se vai o meu salário do mês pra pagar um dia de trabalho.

Confesso que nessa hora quase desisti de trabalhar, voltaria pra casa, dormiria mais um pouco e no máximo levaria uma bronca do meu chefe, inventaria alguma desculpa a ver com a faculdade, doença, sei lá. Mas meu senso patriótico prevaleceu e então o derradeiro estalo eis que surge por entre as brumas de meu cérebro: "Táxi não. Mototáxi!". Sorri larga e bestamente, como provavelmente Einstein sorriu quando descobriu sua Teoria da Relatividade, ou quando, no dia seguinte após o primeiro coito de nossas vidas, sorrimos durante horas pensando "eu sou foda".

Quem me negou moedas antes, agora a meu pedido fazia um telefonema para o mototaxista. Que grande idéia, um mototáxi! Me leva pelos 30 km e quando lá chego, tiro o dinheiro e pago sem problemas. Simples.

Foi aí que me enganei. E o sorriso murchou, como quando pensamos numa idéia maravilhosa, esplêndida e a guardamos para um dia publicarmos e ganharmos algum prêmio, até percebermos, durante uma leitura qualquer, que isso já fora pensado outrora, por outrem. E o mototaxista me pôs à prova. Sem mencionar uma palavra me perguntou: "quanto de adrenalina você agüenta?".

O trecho que eu fazia em 20 a 25 minutos de carro, e bem rápido, ele fez em 15, ziguezagueando por entre carros, rampando quebra-molas, cantando pneus, empinando a moto e atropelando velhinhas indefesas. Eu segurava firme no metalzinho atrás da moto e o coração saía pela boca. Quando desci, minhas mãos estavam duras e não desgrudavam. Devo ter retorcido o ferro, pois quase o arranquei fora. Mas lá estava, vivo, pronto para assumir meu posto e, desta forma, contribuir com minha parte com esta nação que tanto nos oferece, tanto nos estima, tanto nos protege e retribui de forma como nenhum outro país o faz.

Desde então, nunca mais fiquei sem dinheiro na carteira.


 

Curitiba, 27 de abril de 2007

Como sempre se acha textos antigos, provavelmente escritos depois de muito álcool...


You are Scarlett, and you don't know. You feel sad.
I don't know why am I here.
Senso de humor: vou tentar imaginar onde foi parar o whisky.
And there we find each other.
Shit.
And then we find one another.
Hilarious.
And besides I always seem to see her there, Scarlett is closest to the other, fisically.
And she is fucking intelligent.
And she is fucking beautiful.
Sexy. A little bit uncomfortable with the situation. Just like me.

But...

Tomorrow, friday. I won't be at classroom at the right time. And I don't give a fuck, 'cause there are more things to do than to come out to class.

And there is lying Scarlett quiet on her bed. Upset.
There am I.
The worst way to get in touch with her.
Fuck.
Stupid japanese.
Having fun? So, so...
He love her. Lier.
She's the other slimmer.

Smile, girls.
Scarlett is Charlotte,
Bill is Bob Harris,
and you smoke.

I don't.

*

Too bad. Too late.
I love you.
Quem estou enganando?

Monte Fuji.
Fuck you Dexter. So funny.
Terrible, me & the whisky.

I do remember. The first time we met, on the lift.

John doesn't know who you are.
Fred doesn't know who you are.
You don't know who you are.

But I know.


 

Sobre a Vida

Nasci. Mais ou menos isso, pelo menos ao que me parece. Vida nasceu e olha pra longe.

"Comment allez vous?"

Como se Vida soubesse francês. Nunca freqüentou aulas, a Vida. Tem memória curta também. Nasceu com amnésia e vive o presente sem saber de onde veio e para onde vai, nem porquê está aqui. Vida não sabe nada disso e eu não sei usar os "porquês". Mas isso não é necessário, pois existem revisores. O que eu e Vida precisamos é transmitir a idéia, mostrar nosso pensamento ao mundo. O pensamento presente que vive só e sem ligações com os outros tempos. O pensamento descontextualizado, desconexo, vão, aquele exato pensamento - que eu e a Vida sabemos - não mudará a vida de ninguém.

Às vezes converso com a vida e ela é sarcástica. Tem humor negro. Alive. Ela me disse um dia:

"A vida para ser bem vivida
tem que ser vivida com a mulher da vida"

Irônica. E sempre me pergunto como colocar uma risada num diálogo, descrever gargalhada, emoçoes distintas, mas nada nunca me surge.

Sempre restam duas linhas a serem preenchidas na página. Restavam, dona Vida.


 

Entrando pelo cano (da bota)

Ma vaffanculo, cornuto!!


O remédio que estou tomando é forte. Um antibiótico que se toma em 3 etapas de 3 dias seguidos, intercalados por uma semana cada etapa. E dá uma caganeira inacreditável. Mas enfim, é o preço que se paga pra tentar ir à europa com a saúde razoavelmente em dia.

Pois é, vou pra Itália. É um fato. Algumas pessoas já sabiam, mas eu ainda aguardava o momento certo, e creio que ele chegou agora. (Não sei porque tenho na cabeça que não existe vírgula antes do “e”, mas prefiro assim. E também não sei porque a reforma ortográfica do português não unificou os “porquês”, mas enfim...)

Pensei em começar a relatar minha preparação para a viagem, as minhas impressões da europa e todo aquele trá-lálá de imigrante impressionado. Talvez eu faça isso. Talvez eu jogue fotos de lá neste blog, ou crie um fotolog, ou as jogue no orkut, ou envie por email aos mais chegados, ou nada disso. Talvez roubem minha máquina ou talvez eu esqueça de comprar pilhas, ou esqueça o cabo USB pra conectar no computador. Forse, como diriam os italianos.

Talvez eu esteja cometendo um grande erro. Talvez não. Largar um emprego razoavelmente bom e fácil, vender o carro pra torrar tudo em uma viagem louca e sem sentido a países desconhecidos, sem pessoas conhecidas por perto, sem nenhuma noção do que fazer pra sobreviver lá (já que é difícil arrumar um trampo de jornalista ou bancário, que é o que em tese eu sei fazer, ainda mais em outro país), torcendo pra agüentar 3 ou 4 meses até a cidadania sair e assim poder tentar ganhar em euro, sabe-se lá fazendo o quê, numa cultura estranha, totalmente diversa da minha, num país onde a xenofobia é cada vez mais forte e cujo chefe de estado além de já ser de direita, fez alianças com a extrema-destra, país este que no passado aliou-se à Alemanha nazista, que dispensa apresentações.

Talvez eu esteja louco. Muita gente me disse isso. Disse? Que nada. Uns três só. A maioria fala pra ir mesmo, aproveitar que é jovem (embora careca), solteiro e sem compromisso que me prenda por aqui, que é uma experiência que valerá por toda a vida, que se arrependeram de não terem ido quando eram mais jovens e agora não podem largar a família e tentar a sorte, que tudo dará certo e, na pior das hipóteses, terei muitas histórias pra contar.

Não faço a menor idéia do que vai virar esse blog. Não sei se continuarei escrevendo aqueles textos que não apresentam qualquer história ou nexo. Não sei nem se lá conseguirei atualizar este blog tão constantemente como penso que meu ócio forçado de 3 meses talvez me permita, até porque precisarei de um notebook, e sinceramente não pretendo gastar tão cedo essa quantia. Pelo menos não antes de meu primeiro salário em euro.

Mas uma coisa é certa: tentarei o quanto puder manter atualizado e colocar informações curiosas sobre tudo o que não é vital pra ninguém, mas que ao menos, como a televisão e agora a internet, entretêm as pessoas e fazem uma coisa que nada ou ninguém mais consegue fazer de maneira tão primorosa: perder nosso tempo.

Bem-vindos ao novo Assim Falhou Zaratustra



 

Os melhores títulos da literatura


- Os grandes poetas morrem em penicos fumegantes de merda (conto de Charles Bukowksi)

- E do Meio do Mundo Prostituto Só Amores Guardei ao Meu Charuto (livro de Rubem Fonseca)



 

Um pouco de propaganda gratuita

To fudido e mal pago. E não venham me dizer que o correto é fodido. Palavrão que é palavrão transgride regras, senão perde o sentido de ofensa. FUDIDO, CÚ, BUCETA, VIADO.

Mas não era por aí que eu ia. Como não sei alterar o layout deste blog, nem como entrar no código fonte pra adicionar links, vou colocar aqui alguns links fora do tipos que freqüento vezemquando:

http://orebate-eduardoritter.blogspot.com - do meu primo Eduardo
http://maoinglesa.blogspot.com/ - do meu outro primo Fábio, irmão do primeiro
http://www.daniloverpa.blogspot.com/ - do meu camarada Danilo
http://indiecool.livejournal.com/ - de Patricia Proust, uma guria que escreve pra caralho e sabe-se lá porquê ainda não sobrevive de literatura - e por acaso anda sumida

* * *

Feita a propaganda, aviso a vocês que me despeço de Londrina por dois dias na quarta e quinta e retornarei em breve com boas novas. Oficialmente, se tudo ocorrer da maneira como venho planejando as coisas. Alguns já sabem do que se trata. Outros saberão mais e, a partir daí, uma nova era será inaugurada neste espaço. Como se alguém ligasse pra isso tudo.

Até.


 

Sobre as verdades humanas (ou 'Sr. Orgasmo, a ascensão de um mito')

Algum incauto que acompanha meu blog desde o início (2003, muito antes de migrar pro Tipos) já deve ter ouvido falar no Sr. Orgasmo. Uma figura atípica que sempre que o encontro, tenho grandes ataques de riso.

Há muitos anos eu e meus companheiros de festa na noite londrinense, nas madrugadas de sábado pra domingo, saciamos nossa fome com pastel da feira ali na Rua Alagoas, ao lado do Cemitério. Quando se estaciona ali na última quadra da Alagoas, com o dia já claro, há grandes chances de você topar com o Sr. Orgasmo, o guardador de carros. Flanelinha, em outras palavras.

Quem me conhece sabe que não suporto esse espécime de hábitos noturnos que perambula pelas ruas. Inclusive, no auge da faculdade, quando eu ainda acreditava um pouco em jornalismo, fizemos um documentário que ganhou um prêmio em Curitiba, justamente sobre exemplares dessa mesma fauna. Mas este é um caso à parte. Ele não é qualquer um, é um Senhor Flanelinha, sejamos bem claros.

Lembro-me muito bem: nas primeiras vezes que fomos lá surgia um velhinho, pela aparência já pelos 60 anos, gritando "E aí pessoal, muito orgasmo nessa noite?!" ou na saída nos desejava "Muito orgasmo pra vocês!", entre outras pérolas. Talvez pelo nosso teor alcoólico, talvez por que fosse gente boa mesmo, sempre dávamos uma graninha pro cara. Afinal, não é sempre que a gente encontra um flanelinha que não seja ameaçador.

Em uma dessas noites Sr. Orgasmo nos chamou antes de entrarmos no carro: queria contar uma piada. E lá foi ele, com aquela voz rouca, o tipo físico do Zé Ramalho, e o espírito de um jovem, talvez um hippie doido que curte um bom papo com a galera. E começou a piada: "Esses dias umas meninas estacionaram aqui e tavam falando quem ficou com quem, quem fez sexo com quem... daí de repente me lembrei da minha filha e minha preocupação acabou. Eu tinha descoberto que ela fazia sexo virtual e fiquei um pouco preocupado, achei que ela tinha problema. Agora sei que o máximo que pode acontecer é ela parir um disquete".

Pode-se presumir que eu e meus camaradas ficamos meia-hora rindo, não somente pela qualidade humorística do acontecido, que é incontestável, mas também pelo nosso teor alcoólico - como sempre - e pelo inusitado da situação. Vindo de uma pessoa humilde, talvez um morador de rua, uma anedota de dar inveja aos melhores piadistas que já existiram. E lá fomos nós, gargalhando sozinhos dentro do carro, embora curar a ressaca. Contudo meu último encontro foi deveras inusitado. Como de costume, fomos à feira, mas acabamos gastando tudo por lá e ficamos sem o dinheirinho pro Sr. Orgasmo. Ele compreendeu na maior camaradagem e começou um monólogo interessantíssimo sobre algo da sociedade contemporânea que não me lembro agora, mas muito profundo. Apesar de nosso grande companheiro orgástico falar sobre um assunto sério, sem piadas, não estranhamos. Era como se soubéssemos que ali acontecia algo sublime, inigualável e ouvíamos atentamente as palavras do Zé Ramalho em sua estação lunar.

Nesse meio tempo deve ter passado de 5 a 7 minutos de conversa. Eu ia dizer que estávamos parados e atentos, mas estávamos somente atentos, já que a vertigem do álcool nos impedia a obtenção do equilíbrio. No auge de seu discurso, no ápice de sua retórica, eis que senão quando ouvimos uma voz vinda do outro lado da rua, às costas de nosso mestre, interrompendo-lhe o fluxo do raciocínio e, por conseguinte, aquele momento apoteótico: "Pai, olha lá na frente, o pessoal tá saindo sem pagar!"

E o Sr. Orgasmo, aproveitando a emoção exacerbada de seu discurso, emite a senteça definitiva, a frase que define, senão o porquê da existência da humanidade, ao menos uma faísca inspiradora de sua sapiência:

"Cala a boca, mulher! Não vê que tô conversando, pô?!"

Depois desse dia, virei fã inconteste do Sr. Orgasmo.


 

Sobre viagens e vertigens

Esse é pinga-pinga mas é rapidinho!


No início de junho vou pra Curtiba, passar dois dias atrás de alguma papelada. Esses últimos dias têm sido repletos, em todos os sentidos, o trabalho cada vez mais estafante e menos estimulante. E assim que ele acaba, trocentas coisas pra resolver. Mas não era isso que eu ia falar. Lembro-me bem da última vez que estive em Curitiba. Um curso de uma semana sobre alguma coisa a ver com projetos de investimento, coisas monótonas do gênero, já que nunca usei nada disso no meu trabalho.

Curitiba me traz boas e más lembranças. Uma dessas lembranças aconteceu muito antes de eu sequer pensar em trabalhar onde trabalho atualmente. Foi uma das piores experiências da minha vida, mas será muito útil para minhas futuras empreitadas. Peguei um ônibus em Londrina e faria conexão em outro em Curitiba em direção ao já longínquo e cada vez mais distante Rio Grande do Sul. Fui certo de que no máximo duas horas após minha chegada sairia o outro ônibus. Qual não foi minha decepção ou quase internação imediata num manicômio ao descobrir que teria de esperar 14 (isso mesmo, CATORZE) horas na rodoviára, até o meu ônibus partir, à noite.

Já tava quebrado da viagem até lá, não me restavam muitas opções. Quebrado também financeiramente, sem dinheiro pra ficar num hotel, por mais reba que fosse, pra ir num cineminha e matar duas horinhas, enfim, sem nada. E o pior, sem conhecer a cidade direito, o que inviabilizava qualquer incursão aos arredores, mas tal fato acabou sendo o escolhido.

Antes disso tudo, vaguei provavelmente umas quatro horas ali mesmo, dentro da rodoviária, preenchendo minhas já velhas companheiras palavras-cruzadas (nunca viaje sem uma!) Tentei dormir um pouco e um policial me acordou dizendo que não era bom dormir, porque poderia ser roubado. Empertiguei-me no banco com aquele olhar que só não era de ódio porque o sono se abatia sobre mim de tal maneira que me impedia de mudar as minhas próprias feições. Vadiei mais um pouco por ali, fui para o outro lado da rodoviária, na parte superior, e tentei puxar outro ronco por ali, mas pouco tempo depois um policial (talvez o mesmo) acordou-me. Percebi a inutilidade das tentativas, aprendi a manejar o guarda-volumes (deveras complicado para um leigo) e saí a caminhar. Como não conhecia muita coisa, comecei a vagar pelas ruas, seguindo o fluxo de pessoas, dobrando em várias esquinas e cuidando pra não esquecer o caminho da rodoviária. Acabei por chegar no calçadão, onde gastei algum tempo.

(Somente alguns anos depois descobri que ali pertinho tem um Shopping, e minha via crúcis teria sido realmente mais fácil de se suportar, vendo todas aquelas bundas vendo as vitrines das lojas, mas isso já será - ou seria - outra história).

Até eu voltar à rodoviária deve ter passado umas seis horas e meia, talvez sete. Restava-me ainda quatro horas até conseguir subir no ônibus e finalmente seguir meu rumo meridional, à fronteira gaúcha. Foi quando, como saído de um sonho, duas mulheres lindas pararam ao meu lado dizendo que iam pro Rio Grande mas não sabiam dirigir na estrada e então meu problema, graças aos céus, foi resolvido de maneira inesperada.

E isso realmente aconteceu. Nos meus pensamentos, óbvio. Porque eu tive que esperar as quatro horas restantes sentado naqueles bancos duros da rodoviária, sem poder dormir graças a policiais realmente idiotas (digo isso porque recentemente dormi tranqülamente na rodoviária de Maringá por duas horas e ninguém me encheu o saco), tentando me manter desperto preenchendo as palavras cruzadas e anatematizando o ministro dos transportes, sejá lá quem fosse à época (e seja lá quem o é hoje), seus predecessores, sucessores e todas as gerações de suas amadas famílias.

Enfim, chegou o ônibus. Eu estava tão zureta e atormentado, realmente passado como uma uva, que não me lembro de muitos detalhes. Mas no fim sempre tem a recompensa. Ao meu lado no ônibus sentou uma loira muito gostosa, vestida com uma calça branca e posso dizer que passei bem o resto da viagem.

Não acreditou nesta última frase? Não tem problema, ninguém acredita nessas histórias mesmo. Nem eu.


 

Dos esconderijos da razão

Se a luz do céu que irradia vai-se embora, surge então o crepúsculo do ocaso anunciando o fim do dia, a terra a tremer com os uivos do vento, cuspindo chamas ao léu, o horizonte num espelho soturno e sinuoso. O segredo da alma se esconde no riso do sarcasmo. Na crescente atmosfera de pânico, o medo é um triste pesar. O reino ao longe perdido, nunca existido, nunca alcançado, embora em sua frente.

A cobiça é o mal maior da vida. Destrói lares e vidas, objetivos previamente definidos sucumbem à implacável força da ganância. A cada dia menos sentido os pensamentos têm, ou fazem. Num obstáculo que te engole como um precipício profundo e súbito, a consciência se esvai sob o céu de brigadeiro, escondido na treva, o esconderijo fugaz é descoberto e, uma vez revelado, é aniquilado com a mesma indiferença que um serial killer a sangue frio degola suas vítimas.

No escuro do mundo, a pulcritude inexiste. É lá que vive a urgência.


 

CECÍLIA



O desaparecimento de Cecília foi um baque para todos nós. Nos reuníamos quase toda semana, cinco a sete pessoas, para bebermos e comemorarmos nossa amizade. Cecília sempre fora a mais reservada do grupo, só se soltava depois de beber algumas doses, mas era divertidíssima. De poucas e certeiras palavras, era impossível não se impressionar com a acuidade de sua inteligência. Vez ou outra, devido a alguns remédios que alegava tomar para combater dores insuportáveis na coluna, Cecília ia a nossos encontros e não bebia. Já nos acostumáramos a isso depois de anos. A última vez que a vimos ela não bebeu.

Foi um mês sem sua presença e começamos a nos preocupar. Karla era a única da turma que sabia onde Cecília morava e propôs que fôssemos visitá-la no fim de semana seguinte. Todos aceitamos e brindamos a ela.

No sábado pela manhã fomos a seu prédio. Não havia porteiro e ninguém respondia ao interfone. Por sorte um morador saiu instantes depois e conseguimos entrar. Encontramos a porta entreaberta e, após tocarmos a campainha, entramos. A sala estava vazia, sem mobília, sem nada. A poeira que se acumulava no assoalho era espessa e parecia de meses. Não havia pegadas ou rastro de móveis arrastados. Simplesmente abandonado. Senti um frio na espinha e todos pressentimos que algo estranho estava para ocorrer.

Queríamos apenas ir embora, contudo estávamos imóveis. Era certo que não havia mais ninguém além de nós, mas tive a intolerável certeza de que Cecília ali estava. Era possível sentir uma presença etérea, difusa, como se preenchesse a sala inteiramente e se unisse ao ar de alguma forma, tornando-o espesso. Nossos movimentos cada vez mais lentos e desesperados pareciam presos, de tal forma que nos sentíamos em câmera lenta, tentando fugir de algo invisível contudo aterrorizante, como nas vãs tentativas de fugas em meus piores pesadelos. E como esse desespero não fosse suficiente para deixar-nos inertes, Cecília materializou-se subitamente e o ar voltou ao seu estado físico natural. No entanto o terror que nos acometeu impôs-se sobre nossa vontade, que ordenava a fuga, e somente pudemos sentir o alívio de não estarmos mais presos ao ar espesso e pegajoso. Não havia como reagir, o medo em situações subitamente desconhecidas é como um paralisante. Mesmo o mais forte e emocionalmente controlado dos seres humanos, diante do oculto e do imprevisível, sente-se acuado, perde o controle de seus atos e pensamentos.

Cecília parecia querer vingar-se de nós por algum motivo, mesmo sendo todos seus amigos e incapazes de fazer algo que pusesse em perigo a vida de qualquer um de nós, inclusive a dela. Sua face deformada transbordava ódio. Embora fosse possível ter certeza de sua identidade, ela parecia não reconhecer-nos. Pairando a meio metro do chão, assemelhava-se a um animal prestes a destroçar sua presa. Havia Cecília e seu corpo, mas não havia alma, nem discernimento entre bem e mal.

Subitamente, como um tigre, Cecília investe em nossa direção. A certeza da morte vem como o sopro de uma ventania, acompanhada de um terror lívido que nos obriga a comprimir com força nossos olhos, rezando ardentemente para que possamos acordar de mais este pesadelo.

Cecília dissipa-se. Silêncio.






 

Senza senso

Penso no tempo como um paradoxo. Se exige tempo, mas não se vive. Na fartura (farta de tempo), ele urge. E vivemos.

O cérebro como um roteiro a ser seguido. Pré-determinado, sem sustos ou sobressaltos. A frieza no olhar e no sentir.

Distanciamento científico é o amortecedor da ânsia e o destroçador da emoção.

A indiferença no mundo e o seu peso. Milan Kundera.

O torpor inebriante. A visão desconexa elevada à quinta potência. O sentimento reconfortante de aquecer-se por dentro. Como Érico Veríssimo chamou o chimarrão de poncho interno, é este o álcool em nós.

O futuro como uma incógnita.

Uma bota.


Mas o importante é o que importa. E mais importante do que isso é a ...

o...

hmm...


 

Sonho

Hoje sonhei que acordava em meu quarto com um cheiro terrível: merda. Merda por todos os lados. Primeiro, desconfiei que uma pomba estava por ali, depois descobri que era um gato.

Tentei de todas as maneiras tocá-lo para fora do meu quarto, mas o bichano era muito burro, e não escapava pela janela. Quando se sentia acuado, eriçava os pêlos das costas, prestes a me atacar.

Tentei de diversas formas fazê-lo ir embora e evitando o confronto. O maldito gato continuava lá. Até que, de alguma forma, ficou preso em uma rede. Peguei-o pelo cangote, o joguei várias vezes ao chão até ficar inconsciente.

Depois, coloquei no vaso e puxei a descarga. Daí acordei.


 

Da eternidade



O nome deste menino é Mateus. Nasceu na segunda da semana passada.

O nome deste senhor é Victório. Morreu hoje, uma semana depois.

Mateus é bisneto de Victório. Seu primeiro bisneto. O bisavô faleceu antes de ambos se conhecerem.

No fim do mês, Victório completaria 90 anos. Mateus completará um mês de vida. Dois extremos de um ciclo infinito.

A eternidade está agora diante dos dois, de maneira distinta:

Aproveite-a, meu sobrinho Mateus!

Aproveite-a, meu avô Victório!


Gérson Dalla Corte


 

O que vejo, o que sou e suponho...(*)

Thundercats? Pink Panther?


Não agüento mais. Ultimamamente tenho sonhado muito com tigres, leões e outros felinos gigantescos me atacando. De alguma forma, sempre escapo deles intacto, me escondendo em quartos da casa, correndo pela cidade ou em labirintos.

Nunca morri. Em meus sonhos. Há uma crença de que quando morremos em nossos sonhos, não mais acordamos. Quando criança, continuamente eu sonhava que rolava penhasco abaixo, mas antes de me espatifar contra o chão, acordava, suor aos cântaros, mas vivo. Da mesma forma, quando sonhava que me afogava, sem ar - seja pelo nariz trancado de algum resfriado, seja por apnéia involuntária - quando me via prestes a engolir água pelos pulmões, acordava de súbito, da mesma forma retro descrita.

E agora os gatos selvagens.

Borges, em trecho de um seu conto aqui reproduzido, fala sobre a morte num sonho. O que exaspera é nunca ter a certeza de que os sonhos são realmente inofensivos. São janelas ao desconhecido, sem leis. Tentar entendê-los pode ser perigoso. Morfeu, deus grego dos sonhos, poderá ser vingativo.
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* Alusão ao poema Um sonho num sonho, de Edgar Allan Poe, na versão em português e no original, que, como sempre, é melhor, pois é, obviamente, o original.


 

A expectativa é a única a esvaecer

E hoje lá ia eu andando por estas ruas, que nos países de fala espanhola são chamadas de calles, e topei com um abstêmio. Me disse - e fez questão de me antes de dizer - que as auréolas hoje são raras e, como um bom taciturno, não se locupletava indistintamente. Sorumbático de espanto, esquizofrenei-o de interrogações exclamativas exigindo melhoras, mas não as obtive. O abstêmio, com aquele ar escalafobético intrínseco àqueles que primam pela excentricidade extrínseca e concêntrica, anatematizou-me e, trêfego, como convém aos abstêmios, exauriu pela fresta à direita.

Com opróbrios nauseabundos, exteriorei minha cólera. Não pude catequizar-me sob tal suspeição. Obcecado, ermo e lúgubre, o vento enlevou minhas memórias a tal ponto que chafurdaram nas lamas do brejo de lava incandescente.

Qüiproquós guincharam desesperados. The return has begun. Por ora, horas não são bem vindas, nem bem vistas. Inebriado pela exasperação do acontecido, entornei a garrafa de Água benta até virar abstêmio.

Fui traído.


 

A via-crúcis

Imagine um bar repleto de pessoas numa happy-hour de uma terça-feira qualquer em uma cidade aleatória, contudo quente o suficiente para que as pessoas, após seu longo dia de trabalho, sintam a necessidade de embebedar-se levemente. Numa dessas mesas, aliás, todas lotadas, se encontra um grupo de colegas que faz piadas, discutem as coisas de errado no escritório, flertam com as garotas que desfilam em suas roupas coladas, etc. Logicamente, como em toda mesa de bar, há as piadinhas nas quais reconhecemos figuras famosas do esporte, tv e afins, nos simples concidadãos que possuem uma leve aparência física semelhante.

Sempre há o Ronaldinho. Ultimamente, na verdade, o Marcos Valério tomou seu lugar. O Bussunda também é comum. E vez ou outra aparece um garçom com a cara do Robinho. E nessas idas e vindas de desconhecidos em meio ao tumulto de pessoas sentadas e outras em pé aguardando lugar, não mais que de repente, um dos caras sentado à mesa apontou para a entrada do bar e falou num tom sóbrio, como se fosse algo corriqueiro.

-Lá vem Jesus Cristo.

Todos sentados à mesa se voltaram para o referido personagem, que, tirando as roupas modernas e o cabelão preso, era incrivelmente semelhante a Jesus. No meio da multidão, Jesus olhou meio a contra-gosto para toda a multidão, pois percebia, naquele instante, que demoraria demais para sentar à mesa. Abriu os braços então e, em seguida, um clarão desceu dos céus em sua direção, como um holofote divino, e Jesus abriu caminho por entre as pessoas, como se caminhasse sobre mar, como Moisés abrindo caminho no Mar Vermelho. E as pessoas se afastavam à medida que Jesus caminhava, com a calma, a sobriedade - por enquanto - e a serenidade de quem sabe exatamente o que faz. Jesus chegou perto de uma mesa e a luz que abarcava Jesus expulsou-as dos assentos. Enfim, assim que o coro de anjos cantando "óóóó" cessou, Jesus sentou-se à mesa. Todos abismados. Foi então que Jesus, como nas profecias bíblicas, proclamou para que todos no local o ouvissem:

-Garçom, uma geladíssima!

Que Eu me chicoteie! Que ressaca!


 

Segundo Didi Mocó (dos áureos tempos)

Definição de Hipótese: uma coisa que não é que a gente finge que é pra ver como seria se fosse.


 
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