Assim Falhou Zaratustra

Um sonho num sonho num sonho

Um dia ou uma noite – entre meus dias e minhas noites que diferença existe? – sonhei que no chão do cárcere havia um grão de areia. Voltei a dormir, indiferente; sonhei que despertava e que havia dois grãos de areia. Voltei a dormir; sonhei que os grãos de areia eram três. Foram, assim, multiplicando-se até encher o cárcere e eu morria sob esse hemisfério de areia. Compreendi que estava sonhando; com enorme esforço despertei. O despertar foi inútil; a inumerável areia me sufocava. Alguém me disse: “Não despertaste para a vigília, mas para um sonho anterior. Esse sonho está dentro de outro, e assim até o infinito, que é o número dos grãos de areia. O caminho que terás de desandar é interminável e morrerás antes de haver despertado realmente”.

Trecho do conto ‘A escrita do deus’ in O Aleph – J.L. Borges, 1972

Publicado em 16 de novembro de 2007 às 01:00 por zaratustra

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