Foi no raiar do dia, de óculos escuros protegendo-me da sensação sempre incoveniente da luz solar, que percebi a finitude do ser enquanto humano (bonita essa).
Talvez tenha sido o uísque falsificado. Mas a claridez (!) foi tão nítida e, desculpem a redundância, clara, que pensei 'como não tinha percebido tudo isso antes?'
E tudo se fez inteligível repentinamente. Como se fosse um aleph mental súbito. Todas as peças do quebra-cabeças se encaixaram e desfrutei da sabedoria e do sentimento de onisciência que só os sábios possuem, aquela mansidão nos gestos, economia na fala, a exatidão das palavras, a momentânea percepção de tudo que é, foi e será, sua razão, causa e circunstância, início, meio e fim.
A vontade era escrever tudo aquilo, publicar, ganhar o Nobel de literatura, doar o dinheiro a causas sociais e viver eremita em cavernas como Zaratustra mesmo o fez, com minhas mulheres eremitas ao redor, exultando-nos em intermináveis festas e descansos em remansos, observando do alto de nossa montanha como a vida flui aos que não perceberam o óbvio, que resplandece em nossa face diariamente e por estarmos ocupados não nos damos conta do quê, afinal, acontece nessa coisa a que chamamos vida.
Mas como eu estava dirigindo deixei pra escrever em casa, e duas quadras depois eu já tinha esquecido tudo isso e só queria chegar em casa, dormir, e torcia para que meu estômago resistisse bravamente ao uísque falsificado.
Já transbordou o teu saber do cálice?
Já abandonaste a tua caverna, os teus remansos e as tuas orgias eremitas para descer à praça do mercado e lançar à multidão o teu ensinamento?
Já te tornaste ao menos leão, já afirmaste o teu "eu quero" ou ainda vives sob o peso dos "tu deves"?
Não te cairá melhor o elixir das vinhas de Dioniso do que whisky falsificado?
Já te encontraste com a vida, já a miraste nos olhos, já descobriste o que a vida quer de ti?
E já te desprendeste, já alçaste o vôo, já te superaste?
Já és tu quem a ti mesmo comanda?
Já criaste valores?
Já conhehceste a alegria?
Fraternais Saudações :