Assim Falhou Zaratustra

As doze dores da fêmea que não veio



Padre Reinaldo, engraçadinho que é, foi quem me contou da lenda das doze dores da fêmea que não veio.

Estávamos como sempre, Padre Reinaldo, eu e um grupo de senhores que sempre participavam das reuniões da paróquia, conversando sobre as crises no governo, os escândalos, economia, história e diversos outros assuntos que amenizam as agruras da convivência social. Estávamos na biblioteca subterrânea do padre, iluminados pela lareira e pelos candelabros antigos da Igreja Católica, essas relíquias remanescentes d'antanho. O casarão no qual o padre vivia era também antigo e ficava ao lado da paróquia. O vinho foi se esvaindo e, numa pausa com gravidade, Padre Reinaldo inquiriu-nos:

- Sei que são todos aqui grandes conhecedores de coisas, de histórias e de vidas, contudo veio à minha lembrança neste instante um caso que imagino inédito para vocês. Já ouviram falar da lenda das “doze dores da fêmea que não veio”?

Os senhores presentes se entreolharam surpresos. Achei engraçado, mas Reinaldo continuou sério. Parei de rir.

- Não conhecem. Concordo ser um nome deveras estranho, até cômico, mas é a lenda. Dizem alguns que tudo aconteceu mesmo, apesar dos poucos e duvidosos registros encontrados.

Numa época tão remota quanto se possa imaginar havia uma tribo pacífica que vivia de subsistência, sem muito contato com pessoas de fora. Sua religião era singular e, segundo o Padre Reinaldo, nada comparável é conhecido por nenhum dos maiores teólogos ou estudiosos do ramo, e muito pouco foi relatado por outras sociedades. O sumo-sacerdote era sempre o mais jovem da tribo e seu choro na hora do parto, o anúncio de novos tempos.

Raramente o sumo-sacerdote chegava aos três anos em seu posto, pois seu sucessor logo nascia e uma nova era inaugurava-se. Segundo a crença deste povo, a sabedoria está no nascimento: a imparcialidade do recém-nascido proporciona ao povo um modelo igualitário de governo. Não há, dessa forma, oportunistas e pretensos ditadores, pois antes mesmo que descubram sua relevância para a comunidade, é-lhes destituído o cargo.

- Mas como era organizada a vida social se o líder...

Padre Reinaldo me interrompeu com um gesto.

- Não se sabe. Os poucos registros que se têm notícia não são estudos antropológicos da sociedade, mas meras descrições curiosas sobre sua religião.

Eis que em uma época de grandes desastres climáticos, a tribo começa a sofrer pela falta de comida. E, segundo as palavras do Padre Reinaldo, quem não come não tem energia para reproduzir-se.

- Quem não come, não come - observei divertido. O Padre sorriu condescendente.

- Então, o sumo-sacerdote, que por sua condição era melhor alimentado, chegou aos 15 anos, chefe de uma tribo de subnutridos e com plenos poderes em mãos. Pode-se presumir que não duraram muito depois disso.

- Mas o que isso tem a ver com as doze dores da fêmea que não veio? - perguntou um de nossos confrades, traduzindo a ânsia que dominava a sala em palavras. Nisto, Padre Reinaldo, com um meio sorriso sarcástico em seus lábios, setenciou:

- Ninguém sabe. Ela não veio.

Publicado em 17 de dezembro de 2007 às 22:24 por zaratustra

Comentários

    • Eu acho que a mãe do sumo-sacerdote colocou anti-concepcional na bebida da aldeia. Assim seu filho seria sumo-sacerdote eternamente.
      A idéia é boa, não?
    • por jayjayrj, Maquiavélico
    • 18.Dez.2007 às 05:23 - Permalink - Reportar
    jayjayrj
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