A terra sem volta

o reflexo negativo: a penumbra



À noite, quando todos os Gattopardos são negros, e a cegueira é luz que guia o reino; quando os postes se apagam e a ilusão retorna; quando o exagero não mais é sentido como um excesso, mas como adendo: nessa hora incerta e obscura, a opacidade surge, enfim, triunfante.

Nessas horas a horda de bárbaros crê na dissonância circunspecta de uma pretensa algazarra, quase um dilúvio, êxtase a reverberar junto aos campos e o concreto. Vejo silhuetas insinuantes, vejo caminhos convexos. O mundo como um astigmatismo.

Pensar, neste momento, é exercício ridículo. As feições de quem pela gente se afeiçoa, como um blended scotch, com o tempo maturam, com o tempo melhoram, com o passar do tempo, se recuperam. O alçar do vôo à quintessência.

As pernas roçam em mim. Aquelas pernas lisas e sedutoras, lascivas, lânguidas, encostam na epiderme em cicatrização. O frenesi, o frêmito do desejo.

Na treva do quarto, o Gattopardo vê. No canto onde a sombra da porta enegrece o mundo. O suspiro.

A procura cessa, por um momento. A eternidade da dúvida ressurge, abarca o pensamento, como um abismo infindo engole, impiedoso, a ansiedade.

O piscar do olho iluminado na escuridão.



 

Sem pestanejar

Construção da Noite

(...)
No casulo há um homem,
mas o fundo é outro lado.
No casulo de seu tempo há um homem,
mas o fundo é outro lado.
É o casulo onde o homem foi achado,
mas o fundo é outro lado.
É o terreno onde o homem foi lavrado,
mas o fundo é outro lado.
É a treva onde o homem foi fechado,
mas o fundo é outro lado.
É o silêncio de um homem soterrado,
mas o fundo é outro lado.
Mas o fundo é outro lado.
É a infância que nasce sobre o morto,
é a infância que cresce sobre o morto,
é o sol que madruga no seu rosto,
é um homem que salta do sol posto
e convoca outros homens para o sonho
e mistura-se à terra
e mistura-se ao sonho.
E o canto recomeça além do sonho,
além da escuridão, além do lago.
Mas o fundo é o outro lado,
mas o fundo principia sem passado,
sem os montes, sem os barcos, sem o lago.

Tua vida verdadeira é o outro lado.
Tua terra verdadeira é o outro lado.
Tua herança verdadeira é o outro lado.
Tudo cessa.
Tudo cessa,
tudo cessa.
Mas o mundo é o outro lado
que começa.

Do trato com a vida

Uno a embarcação
ao porto
e canto a convulsão
de um ser extinto.

Amo o sangue
que me crucia e doma,
com seu ferro.

Não espero
dos deuses,
pois engendro
o deus que me transfere
a solidão de ser
meu próprio invento.

Sou poeta,
formo o ciclo do tempo,
onde me enterro.

II
E vós quem sois? Vós que mostrais o orgulho
de monarcas sentados em seu trono e a ambição
de um jorro que se extingue. Quem sois?

Nada transpõe vossa usura,
nada transpõe a vaidade
das gazelas, com rosto de cavalo.

Vós que desprezais
do canto, a mina;
do tear da vida, a linha,
quem sois?

III
Se mostrardes
a erosão do dia
nas carroças,
concordarei com o sangue.

Se mostrardes
o término do jugo e sua máquina,
calada e represada,
concordarei com o sangue.

Não.
Não pactuo.
Não pactuo com o numerário das serpentes,
tentando violar a talha da nascente.

Não pactuo
com as garras
e o estômago encurvado
deste animal em desuso.

Não pactuo
com a turbulência fátua
da morte e o senhorio
que nos arrasta.

Entre areias sepultas,
estreitado na erva,
odiai-me fundamente.
Não pactuo.

Brotando das idades,
arbusto,
levedado no mundo,
odiai-me.

Sou vosso vômito profundo.

_______________________________________________
Senhoras e senhores, uma salva de palmas a Carlos Nejar, por favor.


 

E assim começa mais um ano

Felif doif mil e oito pra vofês


Hoje no 1° dia de 2008 lembrei-me do natal, e um sorriso surgiu espontâneo. Sim, estou muito mal hoje. Mas já estive pior.

*

Acordei com vassouras ao redor. Sensação estranha.

*

Músicas surgem na minha lembrança. Todas elas do Morphine. Um dos versos que ecoam (e ecoa mesmo, porque hj minha cabeça está vazia por opção) e que gosto muito é assim:

you're the night Lilah
you're everything that we can see
Lilah, you're the possibility


*

Possibilidade: Acontecimento ou circunstância possível, que pode ser, ter sido ou vir a ser real.

*

Lilah deve estar se perguntando das circunstâncias. Razões obscuras. Talvez os russos tenham seqüestrado minha memória, mas não fizeram direito a lavagem cerebral, tanto que lembro vagamente de um sobrenome: Smirnoff.

*

Em O castelo dos destinos cruzados, livro de Italo Calvino que li recentemente, pessoas momentaneamente impossibilitadas de falar tentam contar suas vidas por meio de um baralho de tarô. As cartas depositadas contam várias histórias e a cada leitura o significado pode mudar ou ser interpretado de forma diversa. As possibilidades e circunstâncias da vida e sua multiplicidade cabem em apenas um baralho.

*

Se os destinos se cruzam, há possibilidades, mas não certezas. O importante é tentar entender a encruzilhada e lembrar dos bons e divertidos momentos do ano passado. Tentar entender, a minha sina. Mas é como música aos meus ouvidos. Baixo, bateria e sax. Ou uma banda de salsa. Rú!

*

Que 2008 seja pior que 2009 e melhor que 2007. É o que desejo a vocês, meus fantasmas. E também a Lilah.


 
Google

Arquivos