Construção da Noite
(...)
No casulo há um homem,
mas o fundo é outro lado.
No casulo de seu tempo há um homem,
mas o fundo é outro lado.
É o casulo onde o homem foi achado,
mas o fundo é outro lado.
É o terreno onde o homem foi lavrado,
mas o fundo é outro lado.
É a treva onde o homem foi fechado,
mas o fundo é outro lado.
É o silêncio de um homem soterrado,
mas o fundo é outro lado.
Mas o fundo é outro lado.
É a infância que nasce sobre o morto,
é a infância que cresce sobre o morto,
é o sol que madruga no seu rosto,
é um homem que salta do sol posto
e convoca outros homens para o sonho
e mistura-se à terra
e mistura-se ao sonho.
E o canto recomeça além do sonho,
além da escuridão, além do lago.
Mas o fundo é o outro lado,
mas o fundo principia sem passado,
sem os montes, sem os barcos, sem o lago.
Tua vida verdadeira é o outro lado.
Tua terra verdadeira é o outro lado.
Tua herança verdadeira é o outro lado.
Tudo cessa.
Tudo cessa,
tudo cessa.
Mas o mundo é o outro lado
que começa.
Do trato com a vida
Uno a embarcação
ao porto
e canto a convulsão
de um ser extinto.
Amo o sangue
que me crucia e doma,
com seu ferro.
Não espero
dos deuses,
pois engendro
o deus que me transfere
a solidão de ser
meu próprio invento.
Sou poeta,
formo o ciclo do tempo,
onde me enterro.
II
E vós quem sois? Vós que mostrais o orgulho
de monarcas sentados em seu trono e a ambição
de um jorro que se extingue. Quem sois?
Nada transpõe vossa usura,
nada transpõe a vaidade
das gazelas, com rosto de cavalo.
Vós que desprezais
do canto, a mina;
do tear da vida, a linha,
quem sois?
III
Se mostrardes
a erosão do dia
nas carroças,
concordarei com o sangue.
Se mostrardes
o término do jugo e sua máquina,
calada e represada,
concordarei com o sangue.
Não.
Não pactuo.
Não pactuo com o numerário das serpentes,
tentando violar a talha da nascente.
Não pactuo
com as garras
e o estômago encurvado
deste animal em desuso.
Não pactuo
com a turbulência fátua
da morte e o senhorio
que nos arrasta.
Entre areias sepultas,
estreitado na erva,
odiai-me fundamente.
Não pactuo.
Brotando das idades,
arbusto,
levedado no mundo,
odiai-me.
Sou vosso vômito profundo.
_______________________________________________
Senhoras e senhores, uma salva de palmas a Carlos Nejar, por favor.
Publicado em 05 de janeiro de 2008 às 16:33 por zaratustra