Surtos *

A sala improvisada transformada em uma quase-biblioteca estava na penumbra, com as luzes apagadas. Da janela semi-aberta, um vento leve fresco soprava, dando ao ambiente uma temperatura agradável, que eximia ao seu ocupante a necessidade de ventiladores ou condicionadores de ar, mesmo em pleno janeiro. A cortina ondulava calmamente, como se uma cortina pudesse ter calma, e insetos perdidos regularmente esbarravam seus pequenos corpos voadores contra o vidro fosco, guiados pelo brilho do monitor que os atraía.

Na cadeira em frente ao computador, um escritor trabalhava calmamente, no silêncio, colocando e misturando as palavras, invertendo-as e transformando-as em outras. Era alta madrugada, morava sozinho e, como acontecia todas às noites, escrevia, às vezes para esquecer-se da vida, outras vezes para lembrar-se dela. Da vida. Distrair-se.

Bebericava um refrigerante, beliscava um salgadinho industrializado e escrevia. O teclado engordurado refletia em sua gosma as luzes do monitor. O monitor antigo, encardido mesmo quando limpo, não se separava da sujeira, sua grande companheira. A sujeira era como algo de séculos, embora regularmente limpa a casa, impregnou-se de tal maneira que dava à sala o aspecto de descoberta arqueológica, não fossem os equipamentos modernos ali instalados.

Durante um surto de criatividade, que obrigou o escritor a ficar meia hora sem beliscar seus salgadinhos preferidos e seu refrigerante, durante esse meio tempo, ele ouviu um barulho. Parou. Olhou ao redor e, como não podia ser diferente, não encontrou ninguém. Voltou a escrever. Passados mais alguns instantes de continuação do êxtase literário, o barulho surge novamente. Analisou com calma, parecia um ronco, um bicho, algo assim, forte. Por acaso lembrou-se da TV ligada, contudo não atentou para o detalhe de que estava no volume mínimo, fato que, caso ocorrido, poderia ter mudado seu destino. Mas não mudou. Desligou a TV e, ao sentar-se, ouviu outra vez o bramido, mais próximo do que antes. Percorreu todos os cômodos da casa, fechou as janelas ainda abertas, examinou cada canto para conferir se alguém ou algum bicho havia entrado. Após estar certo de sua solidão, pegou uma faca - ele havia votado a favor do desarmamento no plebiscito, e gostava de mostrar-se coerente - e deixou-a ao seu alcance. Sentou-se, um tanto impregnado pelo medo, outro pela incerteza, e mais um pouco da certeza de que alguma coisa estava para acontecer.

Voltou a escrever. Quando pensava em ir à cozinha pegar outro pacote de salgadinhos, ao girar a cadeira, ouviu pela última vez o rugido, como um urro, mais alto e intenso, como um animal lançando-se ao ataque. Paralisado, consegue apenas olhar o rinoceronte que avança em sua direção, com o chifre apontando sua testa. Morreu de pânico, antes de ser perfurado pelo olho.

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* Texto publicado em novembro/2006 em meu antigo blog http://assimfalhouzaratustra.blogspot.com , ressurgido das cinzas em uma conversa de bar com grande amigos ébrios, cujo teor não me recordo.


 

Epílogo

As loiras de SC

Conforme prometido, dedico aqui algumas linhas sobre a maior riqueza de Santa Catarina: as loiras.

Sem dúvida alguma o estado ultrapassa a marca da Unopar no quesito "concentração de loiras por m²", com o diferencial de que grande parte são loiras naturais.

São mulheres tão lindas que poderiam ser modelos em qualquer país do mundo, mas não. São simples e ali estão elas, ao nosso lado. Vou citar apenas três exemplos: a moça que atende na padaria de um mercado em Floripa: lindo corpo, cabelos cacheados, olhos azuis; a atendente das manhãs do camping na praia de Campeche: rosto muito bonito, olhos azuis, cabelo liso, corpo escultural, uma pequena pinta no canto da boca e muito atenciosa com os hóspedes (sem trocadilho); por fim, a atendente do camping de Camboriú, tão bonita quanto as outras, mas com um grave defeito: andava com o namorado a tiracolo.

Isso sem falar em tantas outras que apenas cruzam nosso caminho e nas outras tantas das outras cidades que sequer veremos. Sem falar também naquelas que falam alemão e riem despreocupadamente, com uma espontaneidade e leveza singulares, um belo senso de humor e uma inteligência única, mas que por um acaso dos deuses nada mais são que apenas um lapso de tempo na nossa vida.

O grande compositor Mark Sandman, já falecido, numa música chamada "You look like rain" disse:

your mind and your experience call to me
you have lived and your intelligence is sexy...


Affe...

Mas me despeço de vocês neste instante e aviso que a partir do próximo post volto ao teor fictício e pseudo-literário que habitualmente vocês, meus fantasmas, estão acostumados a ler. Recolho-me agora ao meu obscurantismo habitual.

Gute nacht!


 

Férias na terra dos manés - Último Capítulo

15/02 - Sexta

Minha viagem, na verdade, começou uma semana antes, no carnaval, mas só decidi contar as histórias quando estava sozinho no camping. Relato agora, resumidamente, as peripécias carnavalescas.

Às vésperas do carnaval choveram (hein? hein?) notícias de alagamentos e desmoronamentos em SC. Fomos meio receosos. Saímos daqui às 22h, em 3 pessoas. Em Curitiba subiu mais um passageiro e chegamos em São Francisco do Sul pelas 6h30, com o sol nascendo, e já entramos em um bar para as primeiras cervejas da praia. Quando alugamos e fomos pra casa, eu já estava pra lá de Joinville.

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Férias na terra dos manés - V


14/02 - Quinta

10h
A ressaca é grande. Falo de mim, não do mar. Mas isso passa.

* * *

Ah, as loiras de Santa Catarina! Na verdade a que conheci ontem era loira, mas inglesa. Sabe lá como veio parar aqui. Ela até me contou ontem, mas não entendi e não lembro muito bem. Só sei que trabalha como recepcionista ou caixa num restaurante. Pelo menos ontem consegui exercitar um pouco a língua. Inglesa.

19h
Acabei de chegar em casa. A viagem, como quase todas, parecia não terminar. Mas depois de meia hora de engarrafamento na 101, alguns buracos, um carro capotado e muitas músicas do Morphine, volto a meu lar-doce-lar, com cheques pra cair, usando limite do banco, cartão nas alturas, mas bem. Já profetizava algum sábio filósofo: antes um péssimo dia de férias que um bom dia de trabalho. Péssimo, no meu caso, só as contas.

E se tá ruim pra gente, imagina pro Henrique Barros!


 

Férias na terra dos manés - IV

13/02 - Quarta

Acordei ontem pelas 16h e fui caminhar. A praia do Campeche é grande, abundante em areia e bastante freqüentada por surfistas e suas surfetes. Bem em frente fica a ilha do Campeche, que por motivos financeiros e de força maior, não visitei. À noite saí, mas para minha surpresa não tinha nenhum bar aberto com um movimento digno de tal nome. Depois, analisando racionalmente, depreende-se o seguinte: Florianópolis tem metade da população de Londrina. Logo após o carnaval, quando já não é mais alta temporada, seria demais pedir balada na terça. Nessas horas a gente reclama de Londrina, mas só acharemos coisa melhor em alguma capital do país.

Voltei pra casa e sonhei que encontrava a tumba de uma antiga rainha egípcia que se materializava em minha frente e queria que eu fosse o genitor de seus sucessores.

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Férias na terra dos manés - III

12/02 - Terça

A chuva ontem foi pouca, só o vento assustou. Assim como a chuva, o dinheiro também é pouco, então muito controlado. Nada de manjares nababescos. Pão, manteiga, queijo e presunto, alternando com bolachas recheadas a R$ 0,60 o pacote (uma merreca).

O dia amanheceu nublado hoje, mas bem menos que ontem e o sol não demorou a aparecer. Ainda me recupero de uma queimada na praia da Daniela no sábado, por isso não pretendo ir hoje à praia. Como só me restam duas noites na ilha, saí para reconhecer os caminhos que levam aos bons locais na noite, que são os bares na Lagoa da Conceição e algumas boates na praia Mole e Joaquina, que de onde estou distam mais ou menos 15 km - como ir de Cambé a Londrina. Tirei algumas fotos no mirante da Lagoa e quase gastei dinheiro precioso em lembrancinhas, mas consegui me safar dessas ardilosas armadilhas do demônio. De acordo com a posição do sol, já contando com o horário de verão, deve ser umas 14h agora. Vou dormir um pouco e depois dar aquela caminhada à beira-mar. Ou convidar a loira do mercado pra sair. Aliás, ainda não falei dela. Fica pra outro dia.


 

Férias na terra dos manés - II

11/02 - Segunda

9h
Não acordei tão cedo assim. A noite foi péssima. Há algum tempo nao dormia no meu colchonete magro. A toda hora eu acordava com a chuva ou com gotas em cima de mim, mas como a barraca é razoavelmente grande pra uma pessoas, dei um jeito de dormir na parte de cima (o terreno era levemente inclinado) deixando a goteira para o meio da barraca escorrer até a parte baixa. De qualquer forma, o colchonete tá meio molhado, mas nada que umas horas de sol não resolvam. Se houvesse sol. O tempo está bem nublado, a qualquer minuto pode cair um pé d'agua, uma tromba d'agua ou qualquer outra parte da anatomia dos mamíferos d'água. Cross my fingers, hope to god, knock on wood and pray with all i've got já diria Mark Sandman, clamando por Mary.

17h
De manhã peguei o carro e fui pro sul da ilha, num lugar chamado Pântano do Sul

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Férias na terra dos manés - I


10/02 - Domingo

Hoje é aniversário da minha mãe. a primeira coisa que fiz ao acordar foi ligar pra ela e dar parabéns. Céu está nublado, mas vez ou outra aparece um solzinho. Primeiro dia sozinho em Floripa, não fiz muita coisa. Às 13h fui ao shopping que só abre às 16h no domingo (ou seja, não fui ao shopping). Depois, fui ao mercado que não aceita cartão (ou seja, não fui ao mercado). Esses incidentes foram a prova mais concreta que pude observar da colonização portuguesa em Floripa, e também porque seus nativos são chamados de Manés.

Lá pelas 17h comecei a procurar um local barato pra ficar, alguma pousada a preços promocionais, ou na pior das hipóteses, um camping. O lugar mais em conta que achei, claro, foi um camping. Mas era O camping: 150 m da praia do Campeche com piscina, salão de jogos, banheiros incrivelmente limpos e bem cuidados, churrasqueira e bem arborizado por incríveis R$ 15,00 a diária. Razoável, considerando que das cinco pousadas em que me informei, o preço mais acessível era R$ 100,00/dia.

20h
Tô tentando dormir cedo. Começou a chover e a minha barraca tem goteiras. Improvisei um pequeno pedaço de lona que achei para quebrar o galho. Amanhã acordo cedo. Amanhã tem mais.


 
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