O que vejo, o que sou e suponho...(*)

Thundercats? Pink Panther?


Não agüento mais. Ultimamamente tenho sonhado muito com tigres, leões e outros felinos gigantescos me atacando. De alguma forma, sempre escapo deles intacto, me escondendo em quartos da casa, correndo pela cidade ou em labirintos.

Nunca morri. Em meus sonhos. Há uma crença de que quando morremos em nossos sonhos, não mais acordamos. Quando criança, continuamente eu sonhava que rolava penhasco abaixo, mas antes de me espatifar contra o chão, acordava, suor aos cântaros, mas vivo. Da mesma forma, quando sonhava que me afogava, sem ar - seja pelo nariz trancado de algum resfriado, seja por apnéia involuntária - quando me via prestes a engolir água pelos pulmões, acordava de súbito, da mesma forma retro descrita.

E agora os gatos selvagens.

Borges, em trecho de um seu conto aqui reproduzido, fala sobre a morte num sonho. O que exaspera é nunca ter a certeza de que os sonhos são realmente inofensivos. São janelas ao desconhecido, sem leis. Tentar entendê-los pode ser perigoso. Morfeu, deus grego dos sonhos, poderá ser vingativo.
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* Alusão ao poema Um sonho num sonho, de Edgar Allan Poe, na versão em português e no original, que, como sempre, é melhor, pois é, obviamente, o original.


 

A expectativa é a única a esvaecer

E hoje lá ia eu andando por estas ruas, que nos países de fala espanhola são chamadas de calles, e topei com um abstêmio. Me disse - e fez questão de me antes de dizer - que as auréolas hoje são raras e, como um bom taciturno, não se locupletava indistintamente. Sorumbático de espanto, esquizofrenei-o de interrogações exclamativas exigindo melhoras, mas não as obtive. O abstêmio, com aquele ar escalafobético intrínseco àqueles que primam pela excentricidade extrínseca e concêntrica, anatematizou-me e, trêfego, como convém aos abstêmios, exauriu pela fresta à direita.

Com opróbrios nauseabundos, exteriorei minha cólera. Não pude catequizar-me sob tal suspeição. Obcecado, ermo e lúgubre, o vento enlevou minhas memórias a tal ponto que chafurdaram nas lamas do brejo de lava incandescente.

Qüiproquós guincharam desesperados. The return has begun. Por ora, horas não são bem vindas, nem bem vistas. Inebriado pela exasperação do acontecido, entornei a garrafa de Água benta até virar abstêmio.

Fui traído.


 

A via-crúcis

Imagine um bar repleto de pessoas numa happy-hour de uma terça-feira qualquer em uma cidade aleatória, contudo quente o suficiente para que as pessoas, após seu longo dia de trabalho, sintam a necessidade de embebedar-se levemente. Numa dessas mesas, aliás, todas lotadas, se encontra um grupo de colegas que faz piadas, discutem as coisas de errado no escritório, flertam com as garotas que desfilam em suas roupas coladas, etc. Logicamente, como em toda mesa de bar, há as piadinhas nas quais reconhecemos figuras famosas do esporte, tv e afins, nos simples concidadãos que possuem uma leve aparência física semelhante.

Sempre há o Ronaldinho. Ultimamente, na verdade, o Marcos Valério tomou seu lugar. O Bussunda também é comum. E vez ou outra aparece um garçom com a cara do Robinho. E nessas idas e vindas de desconhecidos em meio ao tumulto de pessoas sentadas e outras em pé aguardando lugar, não mais que de repente, um dos caras sentado à mesa apontou para a entrada do bar e falou num tom sóbrio, como se fosse algo corriqueiro.

-Lá vem Jesus Cristo.

Todos sentados à mesa se voltaram para o referido personagem, que, tirando as roupas modernas e o cabelão preso, era incrivelmente semelhante a Jesus. No meio da multidão, Jesus olhou meio a contra-gosto para toda a multidão, pois percebia, naquele instante, que demoraria demais para sentar à mesa. Abriu os braços então e, em seguida, um clarão desceu dos céus em sua direção, como um holofote divino, e Jesus abriu caminho por entre as pessoas, como se caminhasse sobre mar, como Moisés abrindo caminho no Mar Vermelho. E as pessoas se afastavam à medida que Jesus caminhava, com a calma, a sobriedade - por enquanto - e a serenidade de quem sabe exatamente o que faz. Jesus chegou perto de uma mesa e a luz que abarcava Jesus expulsou-as dos assentos. Enfim, assim que o coro de anjos cantando "óóóó" cessou, Jesus sentou-se à mesa. Todos abismados. Foi então que Jesus, como nas profecias bíblicas, proclamou para que todos no local o ouvissem:

-Garçom, uma geladíssima!

Que Eu me chicoteie! Que ressaca!


 

Segundo Didi Mocó (dos áureos tempos)

Definição de Hipótese: uma coisa que não é que a gente finge que é pra ver como seria se fosse.


 

Álcool de Nós



Quem viagem sobressalta
sobre surra a vergonha
da colheita?
Quem indago direciona?

Sobre terras malditas
bendigo o mal que faço
O acaso é, de um certo modo, um quase
é um maço de fumo incerto
é um certo Quasímodo ao acaso

Quem espreita o dito,
cujo rei e súdito é seu inverso?

Quem origens indaga
e sobre vidas esconde a alma,
reflete os erros
de suas vistas?

Quem sexo necessita?
Quem esdrúxulo reconhece?

O álcool em nossas feridas
alivia a dor que em mim cresce

O álcool em nós
dá-nos um ar renovado,
medonho,
com pequenas fissuras. Ao lado
(em nossas feridas) vivem vermes
vivem vida, vivem erros, espelhos
que cortam e viram feridas
inflamam e viram pus
Pusilânimes, vontade é vertigem.

Vão!
Nossas feridas pelo álcool curadas são

És tu, mulher, meu álcool. Regenera-me.

Sou tua ferida.


 

Esbozos

Pseudo lineas


Soy como el sonido del viento en la noche oscura, sin enbargo yo no sea nada más que un equívoco en el rayar del sol. Pues son mis manos que hacen mi suerte y son ellas que me iluminan.

Soy el nada y nadie. Soy la sombra en la noche. Soy un aprendiz de mis enganos.

Yo me voy. Como el tiempo.

¿Qué se pasa con el tiempo?

El mismo que conmigo. El tiempo muere despacio.

El tiempo mátanos despacio.


 

Sobre extraterrestres

Vindo de Urano: Loriel


Nasci à beira-mar, onde o vento bate de sudeste, com a calma dos mentirosos que inescrupulam a baía. Venho de uma família que fugiu da guerra civil (onde já se viu tamanha mentira e desvario?). Meus dedos estralam toda vez que espirro, é um tique de nascença. Uma cartomante me disse que isso era coisa do demo, mas não acredito nelas (até porque nunca conheci nenhuma). Mas ela insiste até hoje.

Um dia, jogando futebol, meu amigo viu um disco voador. Éramos pequenos, não mais de trinta centímetros cada um. O disco era grande, como um pogobol gigante. Ele - meu amigo - falou, como que possuído por um santo ou algo do gênero (ou sei lá): though thy crest be shorn and shaven, thou art sure no craven, ghastly grim and ancient raven wandering from the nightly shore. Estranhei, pois nenhum de nós dois falávamos inglês. Na verdade, nem sabia que aquilo que ele falara era inglês. Descobri ontem num sonho. Meu amigo disse ao extraterrestre:

-Somos inocentes!

O ET falou:

-Ninguém perguntou isso.

Nos assustamos. Nunca havíamos encontrado um ET em nossa frente, ainda mais um que confrontasse as nossas falas. Trememos as pernas e urinamos na calça.

-Além de tudo são uns mijões - disse o ser extraterreno - só vim perguntar qual o caminho mais próximo para os anéis de Saturno.

Respondi que não sabia e o orientamos a procurar a lua e falar com São Jorge que poderia direcioná-lo melhor. Nos despedimos e ele nos deu uma amostra grátis do raio desintegrador.

Acordei hoje com o pressentimento de que não vim daqui. Na verdade pressentimentos são apenas idiotices que a gente acha que pode acontecer. Pressentimento têm cinqüenta por cento de chances de não se tornarem realidade, como tudo na vida. É uma espécie de superstição nonsense. Minha fada madrinha disse que minha superstição é nonsense. Retruquei que não tenho superstição. Disse-lhe que vivo alheio às crenças fúteis dos tolos e néscios, que minha mente é superior, mas tão superior que talvez não exista mesmo Deus: eu sou Deus. Minha fada-madrinha, séria como nunca a tinha visto antes, disse:

-Tolo dos tolos, néscio dos néscios. Tu és um engodo. Tu és um erro. Tu és tal qual um balão: por maior que sejas, sempre estarás vazio por dentro.

Pensei dois minutos e disse-lhe:

-Fada-madrinha. Foste profunda em tuas sábias palavras. Profunda como um intestino: cheio de merda.

A Fada-madrinha irou-se e anatematizou-me:

-Mentecapto! Pacóvio! Deveríeis saber que não há indulto ou perdão por xingar tua fada-madrinha! Largar-te-ei a partir de hoje e lagarteará pelo resto da tua vida, enquanto não te redimires durante teu caminho! Errarás teu português para toda vida e sempre! Sucumba ante minha maldição!

E a fada-madrinha se foi.

Desde então sinto-me só. Erro o português freqüentemente, contudo nunca percebo se errei ou não. Falta-me alguém como companhia. Sigo só pela minha senda, à procura de minha salvação. O ET me encontrou em meu sonho ontem e me reduziu ao tamanho de um neutrino. Perdi minha Fada-madrinha, como uma árvore no outono perde a cor. Mas na primavera la vecchia árvore retoma suas cores.

Eu não.

Desd'aquele dia, sou monocromático, como a TV antiga que meu avô tinha, em frente à sua poltrona preferida, cheia de pulgas e joaninhas. Como as joaninhas que eu criava em meus dias de infância, verdes, amarelas, vermelhas com bolas multicoloridas em suas asas. As joaninhas se foram. A fada-madrinha se foi. Eu hei de ir algum dia. Por enquanto me vou, por esta trilha amarga e angustiante que me amaldiçoa cada vez mais com sua solitária agressividade. Sou um erro. Enquanto não descobrir onde fui o erro, não terei como livrar-me de minha sina.

Empertiguei-me, olhei para o meu amigo ao fundo de minhas lembranças e dei-lhe adeus.

O ET me acompanha ao longe, em seu pogobol gigante.


 

A TAQUICARDIA CO

meçou semana passada
como um ponto ínfimo
numa vida ínfima,
um nada no nada

A taquicardia começou.
Ora, quem sou eu
contra a taquicardia?
Que farei contra ela?
Que poderes eu haveria de possuir
para controlá-la?
O que começou a semana passada?
Ah, taquicardia...

começou
Por medo das sombras,
Por medo de minhas sombras,
Por medo de enfrentar minhas velhas sombras

ah, taquicardia co
mece logo,
permaneça taquicardia!
Instaure a ti em mim,
que tá aqui com
a taquicardia
a minha obra-mor:
com a taquicardia co
meça um novo eu,
surge um estranho
sentimento
de não mais subjugar-me
às sombras
de meus ataques cardíacos

Ah, taquicardia...


 

Cinque frasi per le donne

1. Por razões obscuras, o texto sobre os deuses egípcios ficará incompleto seculum seculorum. Amon-rá não gostou da minha brincadeira.

2. Pedro Juan Gutiérrez deu a idéia de escrever Mucho corazón, que talvez eu use como inspiração para algum projeto futuro.

3. Il venerdì ho bevuto troppo birre; Il sabato anche, però due volte più.

4. Bob Dylan me disse hoje: Let me forget about today until tomorrow.

5. Breve piada
Definição de Vagina: une o útero ao agradável



 

Falcão e Casagrande

Aleluia, shalom shalom, meu bom alá!

Recentemente tenho lido alguma coisa sobre civilizações antigas. Os fantasmas que acompanham meu blog já devem ter lido no blog predecessor um texto sobre os sumérios, antiga civilização mesopotâmica. Neste texto falo sobre a deusa que presidia a preparação da cerveja: Nin-kasi. Descobri recentemente que a cerveja não era exatamente um privilégio sumério, mas difundida por toda civilização mundial que viveu antes daquele cara nascer. Posso citar como exemplo os egípcios e os minóicos.

Os egípcios, como todos sabem, viviam no Egito. O antigo Egito estendia-se desde o delta do rio Nilo, chamado Baixo Egito, até as chamadas sete cataratas, que por dedução já teríamos de chamar de Alto Egito. Por volta de 3.500 a.C., um único governante dominava toda a região, e entrou pra história o sortudo chamado Menés, que construiu uma capital circundada por muralhas brancas, e deu-lhe o nome de Mênfis. Foi aí que surgiu a primeira dinastia de faraós, que foi sucedida por outras 29, até a conquista do Egito por Alexandre em 332 a.C. Faraó significa apenas e tão somente "casa grande"

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