Nasci à beira-mar, onde o vento bate de sudeste, com a calma dos mentirosos que inescrupulam a baía. Venho de uma família que fugiu da guerra civil (onde já se viu tamanha mentira e desvario?). Meus dedos estralam toda vez que espirro, é um tique de nascença. Uma cartomante me disse que isso era coisa do demo, mas não acredito nelas (até porque nunca conheci nenhuma). Mas ela insiste até hoje.
Um dia, jogando futebol, meu amigo viu um disco voador. Éramos pequenos, não mais de trinta centímetros cada um. O disco era grande, como um pogobol gigante. Ele - meu amigo - falou, como que possuído por um santo ou algo do gênero (ou sei lá): though thy crest be shorn and shaven, thou art sure no craven, ghastly grim and ancient raven wandering from the nightly shore. Estranhei, pois nenhum de nós dois falávamos inglês. Na verdade, nem sabia que aquilo que ele falara era inglês. Descobri ontem num sonho. Meu amigo disse ao extraterrestre:
-Somos inocentes!
O ET falou:
-Ninguém perguntou isso.
Nos assustamos. Nunca havíamos encontrado um ET em nossa frente, ainda mais um que confrontasse as nossas falas. Trememos as pernas e urinamos na calça.
-Além de tudo são uns mijões - disse o ser extraterreno - só vim perguntar qual o caminho mais próximo para os anéis de Saturno.
Respondi que não sabia e o orientamos a procurar a lua e falar com São Jorge que poderia direcioná-lo melhor. Nos despedimos e ele nos deu uma amostra grátis do raio desintegrador.
Acordei hoje com o pressentimento de que não vim daqui. Na verdade pressentimentos são apenas idiotices que a gente acha que pode acontecer. Pressentimento têm cinqüenta por cento de chances de não se tornarem realidade, como tudo na vida. É uma espécie de superstição nonsense. Minha fada madrinha disse que minha superstição é nonsense. Retruquei que não tenho superstição. Disse-lhe que vivo alheio às crenças fúteis dos tolos e néscios, que minha mente é superior, mas tão superior que talvez não exista mesmo Deus: eu sou Deus. Minha fada-madrinha, séria como nunca a tinha visto antes, disse:
-Tolo dos tolos, néscio dos néscios. Tu és um engodo. Tu és um erro. Tu és tal qual um balão: por maior que sejas, sempre estarás vazio por dentro.
Pensei dois minutos e disse-lhe:
-Fada-madrinha. Foste profunda em tuas sábias palavras. Profunda como um intestino: cheio de merda.
A Fada-madrinha irou-se e anatematizou-me:
-Mentecapto! Pacóvio! Deveríeis saber que não há indulto ou perdão por xingar tua fada-madrinha! Largar-te-ei a partir de hoje e lagarteará pelo resto da tua vida, enquanto não te redimires durante teu caminho! Errarás teu português para toda vida e sempre! Sucumba ante minha maldição!
E a fada-madrinha se foi.
Desde então sinto-me só. Erro o português freqüentemente, contudo nunca percebo se errei ou não. Falta-me alguém como companhia. Sigo só pela minha senda, à procura de minha salvação. O ET me encontrou em meu sonho ontem e me reduziu ao tamanho de um neutrino. Perdi minha Fada-madrinha, como uma árvore no outono perde a cor. Mas na primavera la vecchia árvore retoma suas cores.
Eu não.
Desd'aquele dia, sou monocromático, como a TV antiga que meu avô tinha, em frente à sua poltrona preferida, cheia de pulgas e joaninhas. Como as joaninhas que eu criava em meus dias de infância, verdes, amarelas, vermelhas com bolas multicoloridas em suas asas. As joaninhas se foram. A fada-madrinha se foi. Eu hei de ir algum dia. Por enquanto me vou, por esta trilha amarga e angustiante que me amaldiçoa cada vez mais com sua solitária agressividade. Sou um erro. Enquanto não descobrir onde fui o erro, não terei como livrar-me de minha sina.
Empertiguei-me, olhei para o meu amigo ao fundo de minhas lembranças e dei-lhe adeus.
O ET me acompanha ao longe, em seu pogobol gigante.
Ah, o resto do comentário foi censurado...ueheuheu