Penso no tempo como um paradoxo. Se exige tempo, mas não se vive. Na fartura (farta de tempo), ele urge. E vivemos.
O cérebro como um roteiro a ser seguido. Pré-determinado, sem sustos ou sobressaltos. A frieza no olhar e no sentir.
Distanciamento científico é o amortecedor da ânsia e o destroçador da emoção.
A indiferença no mundo e o seu peso. Milan Kundera.
O torpor inebriante. A visão desconexa elevada à quinta potência. O sentimento reconfortante de aquecer-se por dentro. Como Érico Veríssimo chamou o chimarrão de poncho interno, é este o álcool em nós.
O futuro como uma incógnita.
Uma bota.
Mas o importante é o que importa. E mais importante do que isso é a ...
o...
hmm...
Hoje sonhei que acordava em meu quarto com um cheiro terrível: merda. Merda por todos os lados. Primeiro, desconfiei que uma pomba estava por ali, depois descobri que era um gato.
Tentei de todas as maneiras tocá-lo para fora do meu quarto, mas o bichano era muito burro, e não escapava pela janela. Quando se sentia acuado, eriçava os pêlos das costas, prestes a me atacar.
Tentei de diversas formas fazê-lo ir embora e evitando o confronto. O maldito gato continuava lá. Até que, de alguma forma, ficou preso em uma rede. Peguei-o pelo cangote, o joguei várias vezes ao chão até ficar inconsciente.
Depois, coloquei no vaso e puxei a descarga. Daí acordei.
O nome deste menino é Mateus. Nasceu na segunda da semana passada.
O nome deste senhor é Victório. Morreu hoje, uma semana depois.
Mateus é bisneto de Victório. Seu primeiro bisneto. O bisavô faleceu antes de ambos se conhecerem.
No fim do mês, Victório completaria 90 anos. Mateus completará um mês de vida. Dois extremos de um ciclo infinito.
A eternidade está agora diante dos dois, de maneira distinta:
Aproveite-a, meu sobrinho Mateus!
Aproveite-a, meu avô Victório!
Gérson Dalla Corte