No início de junho vou pra Curtiba, passar dois dias atrás de alguma papelada. Esses últimos dias têm sido repletos, em todos os sentidos, o trabalho cada vez mais estafante e menos estimulante. E assim que ele acaba, trocentas coisas pra resolver. Mas não era isso que eu ia falar. Lembro-me bem da última vez que estive em Curitiba. Um curso de uma semana sobre alguma coisa a ver com projetos de investimento, coisas monótonas do gênero, já que nunca usei nada disso no meu trabalho.
Curitiba me traz boas e más lembranças. Uma dessas lembranças aconteceu muito antes de eu sequer pensar em trabalhar onde trabalho atualmente. Foi uma das piores experiências da minha vida, mas será muito útil para minhas futuras empreitadas. Peguei um ônibus em Londrina e faria conexão em outro em Curitiba em direção ao já longínquo e cada vez mais distante Rio Grande do Sul. Fui certo de que no máximo duas horas após minha chegada sairia o outro ônibus. Qual não foi minha decepção ou quase internação imediata num manicômio ao descobrir que teria de esperar 14 (isso mesmo, CATORZE) horas na rodoviára, até o meu ônibus partir, à noite.
Já tava quebrado da viagem até lá, não me restavam muitas opções. Quebrado também financeiramente, sem dinheiro pra ficar num hotel, por mais reba que fosse, pra ir num cineminha e matar duas horinhas, enfim, sem nada. E o pior, sem conhecer a cidade direito, o que inviabilizava qualquer incursão aos arredores, mas tal fato acabou sendo o escolhido.
Antes disso tudo, vaguei provavelmente umas quatro horas ali mesmo, dentro da rodoviária, preenchendo minhas já velhas companheiras palavras-cruzadas (nunca viaje sem uma!) Tentei dormir um pouco e um policial me acordou dizendo que não era bom dormir, porque poderia ser roubado. Empertiguei-me no banco com aquele olhar que só não era de ódio porque o sono se abatia sobre mim de tal maneira que me impedia de mudar as minhas próprias feições. Vadiei mais um pouco por ali, fui para o outro lado da rodoviária, na parte superior, e tentei puxar outro ronco por ali, mas pouco tempo depois um policial (talvez o mesmo) acordou-me. Percebi a inutilidade das tentativas, aprendi a manejar o guarda-volumes (deveras complicado para um leigo) e saí a caminhar. Como não conhecia muita coisa, comecei a vagar pelas ruas, seguindo o fluxo de pessoas, dobrando em várias esquinas e cuidando pra não esquecer o caminho da rodoviária. Acabei por chegar no calçadão, onde gastei algum tempo.
(Somente alguns anos depois descobri que ali pertinho tem um Shopping, e minha via crúcis teria sido realmente mais fácil de se suportar, vendo todas aquelas bundas vendo as vitrines das lojas, mas isso já será - ou seria - outra história).
Até eu voltar à rodoviária deve ter passado umas seis horas e meia, talvez sete. Restava-me ainda quatro horas até conseguir subir no ônibus e finalmente seguir meu rumo meridional, à fronteira gaúcha. Foi quando, como saído de um sonho, duas mulheres lindas pararam ao meu lado dizendo que iam pro Rio Grande mas não sabiam dirigir na estrada e então meu problema, graças aos céus, foi resolvido de maneira inesperada.
E isso realmente aconteceu. Nos meus pensamentos, óbvio. Porque eu tive que esperar as quatro horas restantes sentado naqueles bancos duros da rodoviária, sem poder dormir graças a policiais realmente idiotas (digo isso porque recentemente dormi tranqülamente na rodoviária de Maringá por duas horas e ninguém me encheu o saco), tentando me manter desperto preenchendo as palavras cruzadas e anatematizando o ministro dos transportes, sejá lá quem fosse à época (e seja lá quem o é hoje), seus predecessores, sucessores e todas as gerações de suas amadas famílias.
Enfim, chegou o ônibus. Eu estava tão zureta e atormentado, realmente passado como uma uva, que não me lembro de muitos detalhes. Mas no fim sempre tem a recompensa. Ao meu lado no ônibus sentou uma loira muito gostosa, vestida com uma calça branca e posso dizer que passei bem o resto da viagem.
Não acreditou nesta última frase? Não tem problema, ninguém acredita nessas histórias mesmo. Nem eu.