Um pouco de propaganda gratuita

To fudido e mal pago. E não venham me dizer que o correto é fodido. Palavrão que é palavrão transgride regras, senão perde o sentido de ofensa. FUDIDO, CÚ, BUCETA, VIADO.

Mas não era por aí que eu ia. Como não sei alterar o layout deste blog, nem como entrar no código fonte pra adicionar links, vou colocar aqui alguns links fora do tipos que freqüento vezemquando:

http://orebate-eduardoritter.blogspot.com - do meu primo Eduardo
http://maoinglesa.blogspot.com/ - do meu outro primo Fábio, irmão do primeiro
http://www.daniloverpa.blogspot.com/ - do meu camarada Danilo
http://indiecool.livejournal.com/ - de Patricia Proust, uma guria que escreve pra caralho e sabe-se lá porquê ainda não sobrevive de literatura - e por acaso anda sumida

* * *

Feita a propaganda, aviso a vocês que me despeço de Londrina por dois dias na quarta e quinta e retornarei em breve com boas novas. Oficialmente, se tudo ocorrer da maneira como venho planejando as coisas. Alguns já sabem do que se trata. Outros saberão mais e, a partir daí, uma nova era será inaugurada neste espaço. Como se alguém ligasse pra isso tudo.

Até.


 

Sobre as verdades humanas (ou 'Sr. Orgasmo, a ascensão de um mito')

Algum incauto que acompanha meu blog desde o início (2003, muito antes de migrar pro Tipos) já deve ter ouvido falar no Sr. Orgasmo. Uma figura atípica que sempre que o encontro, tenho grandes ataques de riso.

Há muitos anos eu e meus companheiros de festa na noite londrinense, nas madrugadas de sábado pra domingo, saciamos nossa fome com pastel da feira ali na Rua Alagoas, ao lado do Cemitério. Quando se estaciona ali na última quadra da Alagoas, com o dia já claro, há grandes chances de você topar com o Sr. Orgasmo, o guardador de carros. Flanelinha, em outras palavras.

Quem me conhece sabe que não suporto esse espécime de hábitos noturnos que perambula pelas ruas. Inclusive, no auge da faculdade, quando eu ainda acreditava um pouco em jornalismo, fizemos um documentário que ganhou um prêmio em Curitiba, justamente sobre exemplares dessa mesma fauna. Mas este é um caso à parte. Ele não é qualquer um, é um Senhor Flanelinha, sejamos bem claros.

Lembro-me muito bem: nas primeiras vezes que fomos lá surgia um velhinho, pela aparência já pelos 60 anos, gritando "E aí pessoal, muito orgasmo nessa noite?!" ou na saída nos desejava "Muito orgasmo pra vocês!", entre outras pérolas. Talvez pelo nosso teor alcoólico, talvez por que fosse gente boa mesmo, sempre dávamos uma graninha pro cara. Afinal, não é sempre que a gente encontra um flanelinha que não seja ameaçador.

Em uma dessas noites Sr. Orgasmo nos chamou antes de entrarmos no carro: queria contar uma piada. E lá foi ele, com aquela voz rouca, o tipo físico do Zé Ramalho, e o espírito de um jovem, talvez um hippie doido que curte um bom papo com a galera. E começou a piada: "Esses dias umas meninas estacionaram aqui e tavam falando quem ficou com quem, quem fez sexo com quem... daí de repente me lembrei da minha filha e minha preocupação acabou. Eu tinha descoberto que ela fazia sexo virtual e fiquei um pouco preocupado, achei que ela tinha problema. Agora sei que o máximo que pode acontecer é ela parir um disquete".

Pode-se presumir que eu e meus camaradas ficamos meia-hora rindo, não somente pela qualidade humorística do acontecido, que é incontestável, mas também pelo nosso teor alcoólico - como sempre - e pelo inusitado da situação. Vindo de uma pessoa humilde, talvez um morador de rua, uma anedota de dar inveja aos melhores piadistas que já existiram. E lá fomos nós, gargalhando sozinhos dentro do carro, embora curar a ressaca. Contudo meu último encontro foi deveras inusitado. Como de costume, fomos à feira, mas acabamos gastando tudo por lá e ficamos sem o dinheirinho pro Sr. Orgasmo. Ele compreendeu na maior camaradagem e começou um monólogo interessantíssimo sobre algo da sociedade contemporânea que não me lembro agora, mas muito profundo. Apesar de nosso grande companheiro orgástico falar sobre um assunto sério, sem piadas, não estranhamos. Era como se soubéssemos que ali acontecia algo sublime, inigualável e ouvíamos atentamente as palavras do Zé Ramalho em sua estação lunar.

Nesse meio tempo deve ter passado de 5 a 7 minutos de conversa. Eu ia dizer que estávamos parados e atentos, mas estávamos somente atentos, já que a vertigem do álcool nos impedia a obtenção do equilíbrio. No auge de seu discurso, no ápice de sua retórica, eis que senão quando ouvimos uma voz vinda do outro lado da rua, às costas de nosso mestre, interrompendo-lhe o fluxo do raciocínio e, por conseguinte, aquele momento apoteótico: "Pai, olha lá na frente, o pessoal tá saindo sem pagar!"

E o Sr. Orgasmo, aproveitando a emoção exacerbada de seu discurso, emite a senteça definitiva, a frase que define, senão o porquê da existência da humanidade, ao menos uma faísca inspiradora de sua sapiência:

"Cala a boca, mulher! Não vê que tô conversando, pô?!"

Depois desse dia, virei fã inconteste do Sr. Orgasmo.


 

Sobre viagens e vertigens

Esse é pinga-pinga mas é rapidinho!


No início de junho vou pra Curtiba, passar dois dias atrás de alguma papelada. Esses últimos dias têm sido repletos, em todos os sentidos, o trabalho cada vez mais estafante e menos estimulante. E assim que ele acaba, trocentas coisas pra resolver. Mas não era isso que eu ia falar. Lembro-me bem da última vez que estive em Curitiba. Um curso de uma semana sobre alguma coisa a ver com projetos de investimento, coisas monótonas do gênero, já que nunca usei nada disso no meu trabalho.

Curitiba me traz boas e más lembranças. Uma dessas lembranças aconteceu muito antes de eu sequer pensar em trabalhar onde trabalho atualmente. Foi uma das piores experiências da minha vida, mas será muito útil para minhas futuras empreitadas. Peguei um ônibus em Londrina e faria conexão em outro em Curitiba em direção ao já longínquo e cada vez mais distante Rio Grande do Sul. Fui certo de que no máximo duas horas após minha chegada sairia o outro ônibus. Qual não foi minha decepção ou quase internação imediata num manicômio ao descobrir que teria de esperar 14 (isso mesmo, CATORZE) horas na rodoviára, até o meu ônibus partir, à noite.

Já tava quebrado da viagem até lá, não me restavam muitas opções. Quebrado também financeiramente, sem dinheiro pra ficar num hotel, por mais reba que fosse, pra ir num cineminha e matar duas horinhas, enfim, sem nada. E o pior, sem conhecer a cidade direito, o que inviabilizava qualquer incursão aos arredores, mas tal fato acabou sendo o escolhido.

Antes disso tudo, vaguei provavelmente umas quatro horas ali mesmo, dentro da rodoviária, preenchendo minhas já velhas companheiras palavras-cruzadas (nunca viaje sem uma!) Tentei dormir um pouco e um policial me acordou dizendo que não era bom dormir, porque poderia ser roubado. Empertiguei-me no banco com aquele olhar que só não era de ódio porque o sono se abatia sobre mim de tal maneira que me impedia de mudar as minhas próprias feições. Vadiei mais um pouco por ali, fui para o outro lado da rodoviária, na parte superior, e tentei puxar outro ronco por ali, mas pouco tempo depois um policial (talvez o mesmo) acordou-me. Percebi a inutilidade das tentativas, aprendi a manejar o guarda-volumes (deveras complicado para um leigo) e saí a caminhar. Como não conhecia muita coisa, comecei a vagar pelas ruas, seguindo o fluxo de pessoas, dobrando em várias esquinas e cuidando pra não esquecer o caminho da rodoviária. Acabei por chegar no calçadão, onde gastei algum tempo.

(Somente alguns anos depois descobri que ali pertinho tem um Shopping, e minha via crúcis teria sido realmente mais fácil de se suportar, vendo todas aquelas bundas vendo as vitrines das lojas, mas isso já será - ou seria - outra história).

Até eu voltar à rodoviária deve ter passado umas seis horas e meia, talvez sete. Restava-me ainda quatro horas até conseguir subir no ônibus e finalmente seguir meu rumo meridional, à fronteira gaúcha. Foi quando, como saído de um sonho, duas mulheres lindas pararam ao meu lado dizendo que iam pro Rio Grande mas não sabiam dirigir na estrada e então meu problema, graças aos céus, foi resolvido de maneira inesperada.

E isso realmente aconteceu. Nos meus pensamentos, óbvio. Porque eu tive que esperar as quatro horas restantes sentado naqueles bancos duros da rodoviária, sem poder dormir graças a policiais realmente idiotas (digo isso porque recentemente dormi tranqülamente na rodoviária de Maringá por duas horas e ninguém me encheu o saco), tentando me manter desperto preenchendo as palavras cruzadas e anatematizando o ministro dos transportes, sejá lá quem fosse à época (e seja lá quem o é hoje), seus predecessores, sucessores e todas as gerações de suas amadas famílias.

Enfim, chegou o ônibus. Eu estava tão zureta e atormentado, realmente passado como uma uva, que não me lembro de muitos detalhes. Mas no fim sempre tem a recompensa. Ao meu lado no ônibus sentou uma loira muito gostosa, vestida com uma calça branca e posso dizer que passei bem o resto da viagem.

Não acreditou nesta última frase? Não tem problema, ninguém acredita nessas histórias mesmo. Nem eu.


 

Dos esconderijos da razão

Se a luz do céu que irradia vai-se embora, surge então o crepúsculo do ocaso anunciando o fim do dia, a terra a tremer com os uivos do vento, cuspindo chamas ao léu, o horizonte num espelho soturno e sinuoso. O segredo da alma se esconde no riso do sarcasmo. Na crescente atmosfera de pânico, o medo é um triste pesar. O reino ao longe perdido, nunca existido, nunca alcançado, embora em sua frente.

A cobiça é o mal maior da vida. Destrói lares e vidas, objetivos previamente definidos sucumbem à implacável força da ganância. A cada dia menos sentido os pensamentos têm, ou fazem. Num obstáculo que te engole como um precipício profundo e súbito, a consciência se esvai sob o céu de brigadeiro, escondido na treva, o esconderijo fugaz é descoberto e, uma vez revelado, é aniquilado com a mesma indiferença que um serial killer a sangue frio degola suas vítimas.

No escuro do mundo, a pulcritude inexiste. É lá que vive a urgência.


 

CECÍLIA



O desaparecimento de Cecília foi um baque para todos nós. Nos reuníamos quase toda semana, cinco a sete pessoas, para bebermos e comemorarmos nossa amizade. Cecília sempre fora a mais reservada do grupo, só se soltava depois de beber algumas doses, mas era divertidíssima. De poucas e certeiras palavras, era impossível não se impressionar com a acuidade de sua inteligência. Vez ou outra, devido a alguns remédios que alegava tomar para combater dores insuportáveis na coluna, Cecília ia a nossos encontros e não bebia. Já nos acostumáramos a isso depois de anos. A última vez que a vimos ela não bebeu.

Foi um mês sem sua presença e começamos a nos preocupar. Karla era a única da turma que sabia onde Cecília morava e propôs que fôssemos visitá-la no fim de semana seguinte. Todos aceitamos e brindamos a ela.

No sábado pela manhã fomos a seu prédio. Não havia porteiro e ninguém respondia ao interfone. Por sorte um morador saiu instantes depois e conseguimos entrar. Encontramos a porta entreaberta e, após tocarmos a campainha, entramos. A sala estava vazia, sem mobília, sem nada. A poeira que se acumulava no assoalho era espessa e parecia de meses. Não havia pegadas ou rastro de móveis arrastados. Simplesmente abandonado. Senti um frio na espinha e todos pressentimos que algo estranho estava para ocorrer.

Queríamos apenas ir embora, contudo estávamos imóveis. Era certo que não havia mais ninguém além de nós, mas tive a intolerável certeza de que Cecília ali estava. Era possível sentir uma presença etérea, difusa, como se preenchesse a sala inteiramente e se unisse ao ar de alguma forma, tornando-o espesso. Nossos movimentos cada vez mais lentos e desesperados pareciam presos, de tal forma que nos sentíamos em câmera lenta, tentando fugir de algo invisível contudo aterrorizante, como nas vãs tentativas de fugas em meus piores pesadelos. E como esse desespero não fosse suficiente para deixar-nos inertes, Cecília materializou-se subitamente e o ar voltou ao seu estado físico natural. No entanto o terror que nos acometeu impôs-se sobre nossa vontade, que ordenava a fuga, e somente pudemos sentir o alívio de não estarmos mais presos ao ar espesso e pegajoso. Não havia como reagir, o medo em situações subitamente desconhecidas é como um paralisante. Mesmo o mais forte e emocionalmente controlado dos seres humanos, diante do oculto e do imprevisível, sente-se acuado, perde o controle de seus atos e pensamentos.

Cecília parecia querer vingar-se de nós por algum motivo, mesmo sendo todos seus amigos e incapazes de fazer algo que pusesse em perigo a vida de qualquer um de nós, inclusive a dela. Sua face deformada transbordava ódio. Embora fosse possível ter certeza de sua identidade, ela parecia não reconhecer-nos. Pairando a meio metro do chão, assemelhava-se a um animal prestes a destroçar sua presa. Havia Cecília e seu corpo, mas não havia alma, nem discernimento entre bem e mal.

Subitamente, como um tigre, Cecília investe em nossa direção. A certeza da morte vem como o sopro de uma ventania, acompanhada de um terror lívido que nos obriga a comprimir com força nossos olhos, rezando ardentemente para que possamos acordar de mais este pesadelo.

Cecília dissipa-se. Silêncio.






 
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