Quem sou eu?

Pra quem se interessar, ou pra quem não tiver o que fazer e está de bobeira na net, fui entrevistado em primeira mão neste blog:

http://orebate-eduardoritter.blogspot.com/

Trata-se do blog de um grande jornalista, que por coincidência é meu primo, e traça o modesto perfil deste ilustre anônimo que se esconde atrás da alcunha de Zaratustra.

Aproveitem, se puderem.


 

A mosca e o fogo



A aranha trouxe a teia e mosca à teia veio. Trouxe a aranha a mosca à teia. Pobre mosca! Será o final que veio? Mas a mosca não bobeia, de tanto à teia vir, ateia fogo à teia e à aranha até. Esqueceu-se porém a mosca de que na teia também atada estava ela e tão bem atada que fugir da teia não tinha como. Aranha, mosca? Já era! Como fogo, teia incinerou aranha e mosca e a própria teia. Incinerou-se. Jaziam as cinzas das três atiradas no canto do chão do quarto escuro e flamejante que, por pura falta de noção da mosca, por ora está em chamas.

As chamas chamejantes chamejavam e a chamar ficavam. Chamavam o ar, clamavam por ar, mais ar, precisavam de ar para poder respirar, queimar, incinerar. As labaredas, como lavas recém expelidas de um vulcão ativo, escorriam para os céus, mais alto, mais alto, queimavam as folhas das árvores, as próprias ávores e quem mais desavisado se opusesse ao seu avanço. Lentamente, as labaredas avançavam. Mas eram tantas labaredas a lentamente avançar que rapidamente se alastravam. E não havia extintor que as extinguisse, bombeiros que as bombeassem ou aguás que as esfriassem. O fogo era quente, alto e altivo. Ardia, de volúpia, languidamente, a paixão corava as faces dos transeuntes. O fogo a queimar a vida aos poucos, a intoxicar os pulmões aos tantos e aos montes subindo, cavalgando suas gramíneas prateadas. O vapor emana da fogueira, fogos, fogos, fogões. O amor ao ar, é o fogo.

"De tanto amar e amar,
o que em nós queimar,

é o que nos vai podando.
Amar é libertar,
libertar-se das cinzas,

até ficar o fogo,
o seu trote frondoso,
o fogo, o fogo ainda."

______________________________________________________
Poema final: Carlos Nejar




 

Ausencia

Los espejos son abominables...


HABRÉ de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde.

Jorge Luis Borges - Poemas


 

Querido diário?

Com um título desses, só é possível esperar um texto autobiográfico. E foi o que aconteceu, aí embaixo.

Close na estátua de Júlio Cesar, em Roma.


Hoje faltam exatamente 52 dias para minha decolagem rumo à bota e 3 semanas e ½ de trabalho. É quase impossível passar batido pelos clichês, nessa hora. O frio na barriga é inevitável. A dúvida se a coisa que se faz é certa ou uma baita idiotice sempre surge. Por enquanto nem penso no que levar, pois as poucas viagens intra-Brasil que fiz me mostraram que não adianta se entupir de coisas, porque a maioria se mostrará inútil por lá. Porém algumas dúvidas cruciais surgem, como por exemplo, quais 200 e poucas músicas levarei em meu mp3? Tenho o costume de trocar tudo uma vez por mês, e de onde tirarei as outras?

Outra: que livros levo pra me distrair, além de meu mini-precário-dicionário português-italiano italiano-português? Certamente a Bíblia. Escrita pelo Millôr. A Bíblia do Caos. E depois?

Roupas eu não ligo, são apenas panos, e panos se acha no mundo todo. Mas o que me identifica como sendo eu mesmo é o que gosto e provavelmente não terei tão fácil e tão à mão como tenho aqui.

E volta e meia fico parado, olhando para o vazio (afinal, existe o vazio?). Olhando para um ponto inexistente fixamente e lembranças surgem da vida inteira, como quando jogava bola com meus vizinhos e meus primos quando morei em Panambi, como as brigas em que me metia na 5ª série e quase sempre apanhava, pois eu era um dos únicos que não era repetente naquela turma, das gurias que amei platonicamente em Ijuí, das outras que amei já de outra maneira em Londrina, do primeiro porre na 8ª série e o tempo de colegial em que eu e meus amigos bebíamos a noite inteira e andávamos por toda Londrina à noite, sem nunca termos sido sequer abordados por bandidos, coisa impensável hoje em dia.

Lembro de festas e churrascos familiares, no sítio de meu recém falecido avô, as cachoeiras onde eu e meus primos íamos, após umas 2 horas embrenhados - às vezes até perdidos - no mato para achá-las. Lembro dos 6 meses em que morei com meus outros avós, e desconfio até hoje que minha vó não sabe que eu nunca matei tanta aula quanto naquele tempo. A escolinha de vôlei, os primeiros filmes pornôs que um primo meu conseguia pegar na locadora, o futebol no campinho, os jogos do Grêmio contra o São Luiz, onde vendiam o cachorro-quente mais sem-vergonha (um pão com uma lingüiça assada), porém inimitável. Lembro de lampejos do breve mas intenso ano em que morei em Caxias do Sul, quando quebrei o dente andando de skate e criava girinos para posterior venda dos sapos, numa sociedade montada com um vizinho com os mesmos 9 anos que eu e, obviamente, nunca deu certo. Nenhum sapo se criou. Lembro da professora da terceira série que era linda pacas, embora eu só conseguisse sonhar que estava caminhando ao seu lado, muito longe do que eu sonharia com posteriores professoras no colegial. Lembro de minhas aulas de inglês, de professoras extraordinárias que tive e que mantenho contato até hoje. Lembro do vestibular que passei e consegui não raspar o cabelo. (Ironia do destino: hoje tenho uma máquina e raspo em casa a cada 2 meses).

Lembro do primeiro beijo? Seriamente, não. Mas lembro da primeira vez, e da primeira namorada. Lembro de quando terminamos, como foi chato e como continuou depois. Lembro dos porres com ela. Lembro das músicas. Lembro de uma série de coisas. Até das últimas frases bêbadas desesperadas ditas no celular. Como disse o grande poeta, cantor e compositor (aliás, o único cantor fanho que conheço), o insuperável Belchior já dizia há algumas décadas: "na parede da memória este é o quadro que dói mais".

Imagino que fim levaram alguns amigos que hoje mal me reconhecem no orkut, mas na minha lembrança se mantêm como quando ainda estava lá, cursando a 7ª série, matando aula pra jogar bola ou ir ao fliperama. É realmente triste, mas totalmente compreensível: para eles, fui apenas mais um que saiu da escola e da cidade, como tantos que o fazem todo ano, a vida deles continuou seguindo mesmo rumo. Pra mim, a mudança foi drástica, geográfica e culturalmente falando, numa idade complicada que é a pré-adolescência, numa cidade no mínimo umas 5 vezes maior que a minha. Obviamente acabei me recolhendo em minhas lembranças mais recentes e por vezes devo ter deixado de viver para relembrar esse passado distante. Mas fico feliz por saber que alguns desses meus amigos ainda estão vivos, o que é bom, considerando o rumo que alguns deles tomaram.

Lembro de festas na UEL, no CCH e no RU, regadas a muita cerveja. Lembro de festas doidíssimas em chácaras distantes, com pessoas estranhas e birutas. Lembro das faculdades, as duas que freqüentei e dos grandes e bons amigos que lá fiz. Lembro dos 2 Intercom que fui, em Salvador e em Porto Alegre. As viagens doidas pra SC no carnaval com outros doidos e as mais recentes, sozinho num camping em Floripa e em Camboriú. Os churrascos, shows e festas. Sobretudo, me lembro sempre das ressacas, a cada nova que tenho.

Tudo aparece como um raio na minha cabeça e torna o porvir mais sofrível, porque repentinamente percebe-se que tudo mudará e as lembranças possivelmente me farão de refém no início. Mas o flashback apenas demonstra que não me arrependo de ter feito essa escolha, nem todas aquelas anteriores. O sofrimento é inevitável, mas é por isso que o homem inventou o álcool. A ficha provavelmente vai demorar a cair, talvez só quando eu parar algum italiano na rua e falar “Scusa, mi può dare un’informazione?”

Sei que tudo que tenho pensado e refletido e sofrido nesses dias é passageiro, assim como do avião eu também sou passageiro (belo trocadilho). Mas o importante serão as festas e culturas diferentes que conhecerei, e todo aquele papo óbvio de viajante de primeira bagagem (hj to impagável).

O nervosismo virá.

Mas para ele, terei uma garrafa de uísque comprada na loja Duty Free!



 

South of no north

"Quando minha mente recobrou a lucidez, eram quatro horas da manhã. Todas as luzes estavam acesas e todos já tinham partido. Eu ainda estava sentado ali. Encontrei uma cerveja quente e a bebi. Então fui para a minha cama com aquela sensação que todos os bêbados conhecem bem: de que tinha sido um idiota, mas também à puta que pariu com isso."

Henry Charles Bukowski - Ao sul de lugar nenhum

Não sei porque não me é estranho isso.


 

Domingo, 13 de Julho

Eu e meu copo de uísque
I am Bill Murray...

Hoje era um dia pra beber. Eu e meu copo de uísque.

A verdade contudo impede. Sexta-feira bebi muito e demasiado rápido. Coisas desse tipo acontecem. Ontem, não fosse uma coca-cola salvadora, não teria sobrevivido das 15h até às 21h. Bebendo.

Chegando em casa, não fossem 2,5l de água antes de dormir, hoje eu estaria terrivelmente em estado letárgico de ressaca acumulada. Ainda assim, hoje era um dia para beber. Eu e meu copo de uísque.

Acordei cedo. O silêncio ao redor, quebrado por vezes pelos pios dos pássaros. Nada fazia sentido. A não ser meu copo de uísque. Que não bebi.

Hoje não fiz muita coisa. Li um livro de contos do Bukowski, o que, por si só, já exige um copo de bebida. Até mesmo um uísque. Fiz um arroz muito sem-vergonha e um bife pra comer. E bebi a coca-cola, sem uísque. À tarde dormi um pouco. Olhava pela janela no horizonte e nada via de interessante. Olhei minha cadela reclusa em seu canto. Acho que ela também precisava de um copo de uísque.

Fucei a internet. Li mais um pouco do Buk, sentado sob o sol das 16h, na grama. Eu e meu copo de água.

Vi um resto do jogo do Grêmio. Uma vitória sem-vergonha. 3 pontos a mais. Desde então ouço aqui neste computador rádios italianas de notícias. Pra acostumar o ouvido. Ontem ganhei uma garrafa de vinho. Sobraram 4 latas de cerveja e um restinho de vodka. A noite caía, ontem. Caiu por terra.

Hoje, jantei às 19h. Jejum de 12h até amanhã de manhã. Regras da minha nova religião. Mas não, esta religião não exige o celibato. Só um copo de uísque.

Daqui a 60 anos, ainda estarei procurando o copo de uísque, pois os uísques são como pensamentos melancólicos. Melancolia de cú é rola. Dizem que em 60 anos os uísques valerão tanto como obras de arte. Lá estarei eu (onde?), a procurar e a me perguntar, como um autômato:

- Em 13 de julho de 2008, onde estava meu copo de uísque?

Acho que a minha cadela bebeu tudo o que restava dele.


 

Um dia como qualquer outro


Olha só mamãe! Sem as mãos!


Poderá parecer piada para alguns, ou uma invenção das mais fajutas este relato, mas juro ser a mais pura das verdades.

Embora muitos saibam que eu não gosto de trabalhar (na minha opinião modesta, o ser humano é um animal como qualquer outro, e animais não trabalham) mas preciso disto para sobreviver, neste dia específico - como na vida de muitas pessoas mundo afora, subjugados pela rotina - estava eu me direcionando ao ponto do busão, vinte minutos a pé da minha casa, que me levaria ao meu destino final uma hora mais tarde e 30 km mais longe.

Chegando ao ponto, como sempre, abro a carteira e retiro o passe de ônibus, à espera do traslado particular até o meu destino final. O que impressiona nos ônibus é a variação olfativa: de manhã cedo um cheiro fresquinho de mulheres perfumadas recém banhadas. Já no final da tarde o odor é, definitivamente, outro. Mas não é por aí que vou.

Estava eu a procurar meus passes, e como é de se imaginar, não os encontrava. Parti então à segunda parte do meu plano, que é gastar dinheiro. Não preciso de muito, só uns 2 reais, umas moedinhas e pronto, lá vou eu para o meu trabalho.

Revirei meus bolsos, minha carteira e todos os orifícios que ela continha e nada. Gastei tudo no final de semana. Féla da puta. Meu horário de pegar o ônibus é extremamente britânico: ao desembarcar estou a poucos minutos do início do trabalho. Um ônibus atrasado compromete a eficiência tão cara aos bancários (isto não é uma piada).

Comecei a pensar e, à medida que pensava, o desespero aumentava. Lá se foi o ônibus. Liguei aos meus pais, mas já estavam longe, demasiado longe, sem possibilidade de se deslocarem tanto para me trazer 2 reais. "Fodeu!", pensei. O caixa automático mais próximo era infinitamente distante. Não tenho como pagar um ônibus, imagina só! Daí me deu o estalo: ninguém pode se negar a emprestar dois reais, sou um cara bem vestido, boa pinta, educado. Poderia até pedir em inglês pra evidenciar que não sou efetivamente um mendigo, mas apenas um bom proletário pego de surpresa na sua rotina estafante, mas que, com sua ajuda, irei de bom grado ao meu destino, fomentar a economia do país e ajudar no desenvolvimento e geração de emprego e renda. Mas ninguém se dispôs a me emprestar 2 reais, nenhuma das várias pessoas que inclusive me encontravam diariamente no ponto de ônibus, nem nos estabelecimentos ao redor. "Just some coins, please, I'm not a beggar!", eu implorava, e nada.

Logicamente todos estes fatos aconteceram em poucos minutos, e em minha cabeça voejavam pensamentos "poderia fazer malabarismos no sinal, mas não tem sinal aqui. E também não sei fazer malabarismo, no máximo com duas laranjas. Mas não tenho laranjas" e me perdia, nervoso, nesses delírios. Foi então que me veio o estalo. O segundo: táxi. Mas se não tenho grana pra pagar um busão, imagina um táxi? E 30 km de táxi? Lá se vai o meu salário do mês pra pagar um dia de trabalho.

Confesso que nessa hora quase desisti de trabalhar, voltaria pra casa, dormiria mais um pouco e no máximo levaria uma bronca do meu chefe, inventaria alguma desculpa a ver com a faculdade, doença, sei lá. Mas meu senso patriótico prevaleceu e então o derradeiro estalo eis que surge por entre as brumas de meu cérebro: "Táxi não. Mototáxi!". Sorri larga e bestamente, como provavelmente Einstein sorriu quando descobriu sua Teoria da Relatividade, ou quando, no dia seguinte após o primeiro coito de nossas vidas, sorrimos durante horas pensando "eu sou foda".

Quem me negou moedas antes, agora a meu pedido fazia um telefonema para o mototaxista. Que grande idéia, um mototáxi! Me leva pelos 30 km e quando lá chego, tiro o dinheiro e pago sem problemas. Simples.

Foi aí que me enganei. E o sorriso murchou, como quando pensamos numa idéia maravilhosa, esplêndida e a guardamos para um dia publicarmos e ganharmos algum prêmio, até percebermos, durante uma leitura qualquer, que isso já fora pensado outrora, por outrem. E o mototaxista me pôs à prova. Sem mencionar uma palavra me perguntou: "quanto de adrenalina você agüenta?".

O trecho que eu fazia em 20 a 25 minutos de carro, e bem rápido, ele fez em 15, ziguezagueando por entre carros, rampando quebra-molas, cantando pneus, empinando a moto e atropelando velhinhas indefesas. Eu segurava firme no metalzinho atrás da moto e o coração saía pela boca. Quando desci, minhas mãos estavam duras e não desgrudavam. Devo ter retorcido o ferro, pois quase o arranquei fora. Mas lá estava, vivo, pronto para assumir meu posto e, desta forma, contribuir com minha parte com esta nação que tanto nos oferece, tanto nos estima, tanto nos protege e retribui de forma como nenhum outro país o faz.

Desde então, nunca mais fiquei sem dinheiro na carteira.


 

Curitiba, 27 de abril de 2007

Como sempre se acha textos antigos, provavelmente escritos depois de muito álcool...


You are Scarlett, and you don't know. You feel sad.
I don't know why am I here.
Senso de humor: vou tentar imaginar onde foi parar o whisky.
And there we find each other.
Shit.
And then we find one another.
Hilarious.
And besides I always seem to see her there, Scarlett is closest to the other, fisically.
And she is fucking intelligent.
And she is fucking beautiful.
Sexy. A little bit uncomfortable with the situation. Just like me.

But...

Tomorrow, friday. I won't be at classroom at the right time. And I don't give a fuck, 'cause there are more things to do than to come out to class.

And there is lying Scarlett quiet on her bed. Upset.
There am I.
The worst way to get in touch with her.
Fuck.
Stupid japanese.
Having fun? So, so...
He love her. Lier.
She's the other slimmer.

Smile, girls.
Scarlett is Charlotte,
Bill is Bob Harris,
and you smoke.

I don't.

*

Too bad. Too late.
I love you.
Quem estou enganando?

Monte Fuji.
Fuck you Dexter. So funny.
Terrible, me & the whisky.

I do remember. The first time we met, on the lift.

John doesn't know who you are.
Fred doesn't know who you are.
You don't know who you are.

But I know.


 
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