Poderá parecer piada para alguns, ou uma invenção das mais fajutas este relato, mas juro ser a mais pura das verdades.
Embora muitos saibam que eu não gosto de trabalhar (na minha opinião modesta, o ser humano é um animal como qualquer outro, e animais não trabalham) mas preciso disto para sobreviver, neste dia específico - como na vida de muitas pessoas mundo afora, subjugados pela rotina - estava eu me direcionando ao ponto do busão, vinte minutos a pé da minha casa, que me levaria ao meu destino final uma hora mais tarde e 30 km mais longe.
Chegando ao ponto, como sempre, abro a carteira e retiro o passe de ônibus, à espera do traslado particular até o meu destino final. O que impressiona nos ônibus é a variação olfativa: de manhã cedo um cheiro fresquinho de mulheres perfumadas recém banhadas. Já no final da tarde o odor é, definitivamente, outro. Mas não é por aí que vou.
Estava eu a procurar meus passes, e como é de se imaginar, não os encontrava. Parti então à segunda parte do meu plano, que é gastar dinheiro. Não preciso de muito, só uns 2 reais, umas moedinhas e pronto, lá vou eu para o meu trabalho.
Revirei meus bolsos, minha carteira e todos os orifícios que ela continha e nada. Gastei tudo no final de semana. Féla da puta. Meu horário de pegar o ônibus é extremamente britânico: ao desembarcar estou a poucos minutos do início do trabalho. Um ônibus atrasado compromete a eficiência tão cara aos bancários (isto não é uma piada).
Comecei a pensar e, à medida que pensava, o desespero aumentava. Lá se foi o ônibus. Liguei aos meus pais, mas já estavam longe, demasiado longe, sem possibilidade de se deslocarem tanto para me trazer 2 reais. "Fodeu!", pensei. O caixa automático mais próximo era infinitamente distante. Não tenho como pagar um ônibus, imagina só! Daí me deu o estalo: ninguém pode se negar a emprestar dois reais, sou um cara bem vestido, boa pinta, educado. Poderia até pedir em inglês pra evidenciar que não sou efetivamente um mendigo, mas apenas um bom proletário pego de surpresa na sua rotina estafante, mas que, com sua ajuda, irei de bom grado ao meu destino, fomentar a economia do país e ajudar no desenvolvimento e geração de emprego e renda. Mas ninguém se dispôs a me emprestar 2 reais, nenhuma das várias pessoas que inclusive me encontravam diariamente no ponto de ônibus, nem nos estabelecimentos ao redor. "Just some coins, please, I'm not a beggar!", eu implorava, e nada.
Logicamente todos estes fatos aconteceram em poucos minutos, e em minha cabeça voejavam pensamentos "poderia fazer malabarismos no sinal, mas não tem sinal aqui. E também não sei fazer malabarismo, no máximo com duas laranjas. Mas não tenho laranjas" e me perdia, nervoso, nesses delírios. Foi então que me veio o estalo. O segundo: táxi. Mas se não tenho grana pra pagar um busão, imagina um táxi? E 30 km de táxi? Lá se vai o meu salário do mês pra pagar um dia de trabalho.
Confesso que nessa hora quase desisti de trabalhar, voltaria pra casa, dormiria mais um pouco e no máximo levaria uma bronca do meu chefe, inventaria alguma desculpa a ver com a faculdade, doença, sei lá. Mas meu senso patriótico prevaleceu e então o derradeiro estalo eis que surge por entre as brumas de meu cérebro: "Táxi não. Mototáxi!". Sorri larga e bestamente, como provavelmente Einstein sorriu quando descobriu sua Teoria da Relatividade, ou quando, no dia seguinte após o primeiro coito de nossas vidas, sorrimos durante horas pensando "eu sou foda".
Quem me negou moedas antes, agora a meu pedido fazia um telefonema para o mototaxista. Que grande idéia, um mototáxi! Me leva pelos 30 km e quando lá chego, tiro o dinheiro e pago sem problemas. Simples.
Foi aí que me enganei. E o sorriso murchou, como quando pensamos numa idéia maravilhosa, esplêndida e a guardamos para um dia publicarmos e ganharmos algum prêmio, até percebermos, durante uma leitura qualquer, que isso já fora pensado outrora, por outrem. E o mototaxista me pôs à prova. Sem mencionar uma palavra me perguntou: "quanto de adrenalina você agüenta?".
O trecho que eu fazia em 20 a 25 minutos de carro, e bem rápido, ele fez em 15, ziguezagueando por entre carros, rampando quebra-molas, cantando pneus, empinando a moto e atropelando velhinhas indefesas. Eu segurava firme no metalzinho atrás da moto e o coração saía pela boca. Quando desci, minhas mãos estavam duras e não desgrudavam. Devo ter retorcido o ferro, pois quase o arranquei fora. Mas lá estava, vivo, pronto para assumir meu posto e, desta forma, contribuir com minha parte com esta nação que tanto nos oferece, tanto nos estima, tanto nos protege e retribui de forma como nenhum outro país o faz.
Desde então, nunca mais fiquei sem dinheiro na carteira.