Querido diário?

Com um título desses, só é possível esperar um texto autobiográfico. E foi o que aconteceu, aí embaixo.

Close na estátua de Júlio Cesar, em Roma.


Hoje faltam exatamente 52 dias para minha decolagem rumo à bota e 3 semanas e ½ de trabalho. É quase impossível passar batido pelos clichês, nessa hora. O frio na barriga é inevitável. A dúvida se a coisa que se faz é certa ou uma baita idiotice sempre surge. Por enquanto nem penso no que levar, pois as poucas viagens intra-Brasil que fiz me mostraram que não adianta se entupir de coisas, porque a maioria se mostrará inútil por lá. Porém algumas dúvidas cruciais surgem, como por exemplo, quais 200 e poucas músicas levarei em meu mp3? Tenho o costume de trocar tudo uma vez por mês, e de onde tirarei as outras?

Outra: que livros levo pra me distrair, além de meu mini-precário-dicionário português-italiano italiano-português? Certamente a Bíblia. Escrita pelo Millôr. A Bíblia do Caos. E depois?

Roupas eu não ligo, são apenas panos, e panos se acha no mundo todo. Mas o que me identifica como sendo eu mesmo é o que gosto e provavelmente não terei tão fácil e tão à mão como tenho aqui.

E volta e meia fico parado, olhando para o vazio (afinal, existe o vazio?). Olhando para um ponto inexistente fixamente e lembranças surgem da vida inteira, como quando jogava bola com meus vizinhos e meus primos quando morei em Panambi, como as brigas em que me metia na 5ª série e quase sempre apanhava, pois eu era um dos únicos que não era repetente naquela turma, das gurias que amei platonicamente em Ijuí, das outras que amei já de outra maneira em Londrina, do primeiro porre na 8ª série e o tempo de colegial em que eu e meus amigos bebíamos a noite inteira e andávamos por toda Londrina à noite, sem nunca termos sido sequer abordados por bandidos, coisa impensável hoje em dia.

Lembro de festas e churrascos familiares, no sítio de meu recém falecido avô, as cachoeiras onde eu e meus primos íamos, após umas 2 horas embrenhados - às vezes até perdidos - no mato para achá-las. Lembro dos 6 meses em que morei com meus outros avós, e desconfio até hoje que minha vó não sabe que eu nunca matei tanta aula quanto naquele tempo. A escolinha de vôlei, os primeiros filmes pornôs que um primo meu conseguia pegar na locadora, o futebol no campinho, os jogos do Grêmio contra o São Luiz, onde vendiam o cachorro-quente mais sem-vergonha (um pão com uma lingüiça assada), porém inimitável. Lembro de lampejos do breve mas intenso ano em que morei em Caxias do Sul, quando quebrei o dente andando de skate e criava girinos para posterior venda dos sapos, numa sociedade montada com um vizinho com os mesmos 9 anos que eu e, obviamente, nunca deu certo. Nenhum sapo se criou. Lembro da professora da terceira série que era linda pacas, embora eu só conseguisse sonhar que estava caminhando ao seu lado, muito longe do que eu sonharia com posteriores professoras no colegial. Lembro de minhas aulas de inglês, de professoras extraordinárias que tive e que mantenho contato até hoje. Lembro do vestibular que passei e consegui não raspar o cabelo. (Ironia do destino: hoje tenho uma máquina e raspo em casa a cada 2 meses).

Lembro do primeiro beijo? Seriamente, não. Mas lembro da primeira vez, e da primeira namorada. Lembro de quando terminamos, como foi chato e como continuou depois. Lembro dos porres com ela. Lembro das músicas. Lembro de uma série de coisas. Até das últimas frases bêbadas desesperadas ditas no celular. Como disse o grande poeta, cantor e compositor (aliás, o único cantor fanho que conheço), o insuperável Belchior já dizia há algumas décadas: "na parede da memória este é o quadro que dói mais".

Imagino que fim levaram alguns amigos que hoje mal me reconhecem no orkut, mas na minha lembrança se mantêm como quando ainda estava lá, cursando a 7ª série, matando aula pra jogar bola ou ir ao fliperama. É realmente triste, mas totalmente compreensível: para eles, fui apenas mais um que saiu da escola e da cidade, como tantos que o fazem todo ano, a vida deles continuou seguindo mesmo rumo. Pra mim, a mudança foi drástica, geográfica e culturalmente falando, numa idade complicada que é a pré-adolescência, numa cidade no mínimo umas 5 vezes maior que a minha. Obviamente acabei me recolhendo em minhas lembranças mais recentes e por vezes devo ter deixado de viver para relembrar esse passado distante. Mas fico feliz por saber que alguns desses meus amigos ainda estão vivos, o que é bom, considerando o rumo que alguns deles tomaram.

Lembro de festas na UEL, no CCH e no RU, regadas a muita cerveja. Lembro de festas doidíssimas em chácaras distantes, com pessoas estranhas e birutas. Lembro das faculdades, as duas que freqüentei e dos grandes e bons amigos que lá fiz. Lembro dos 2 Intercom que fui, em Salvador e em Porto Alegre. As viagens doidas pra SC no carnaval com outros doidos e as mais recentes, sozinho num camping em Floripa e em Camboriú. Os churrascos, shows e festas. Sobretudo, me lembro sempre das ressacas, a cada nova que tenho.

Tudo aparece como um raio na minha cabeça e torna o porvir mais sofrível, porque repentinamente percebe-se que tudo mudará e as lembranças possivelmente me farão de refém no início. Mas o flashback apenas demonstra que não me arrependo de ter feito essa escolha, nem todas aquelas anteriores. O sofrimento é inevitável, mas é por isso que o homem inventou o álcool. A ficha provavelmente vai demorar a cair, talvez só quando eu parar algum italiano na rua e falar “Scusa, mi può dare un’informazione?”

Sei que tudo que tenho pensado e refletido e sofrido nesses dias é passageiro, assim como do avião eu também sou passageiro (belo trocadilho). Mas o importante serão as festas e culturas diferentes que conhecerei, e todo aquele papo óbvio de viajante de primeira bagagem (hj to impagável).

O nervosismo virá.

Mas para ele, terei uma garrafa de uísque comprada na loja Duty Free!

Comentários

beeeeeeeergaaaaaa... vc realmente conseguiu escrever um diário! amo-te mais! 35???!?!?! bjs

sara - 26.07.08 08:31

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Lindo texto, parabéns. Delícia de ler.

Estela - 24.07.08 14:04

rsss nossa tanta semelhança, tanto em comum, lendo seu texto novamente parece que estou lendo nas palavras de outra pessoa a descrição de meus sentimentos. Acredito que isso nos pertence e até o momento mais aflitante, angústiante deve ser curtido porque é único, logo vai tentar exaustivamente lembrar a pessoa que você era antes de embarcar e talvez nem conseguirá se recordar.... E digo mais, achei que seria a única a pedir Mas om pouco do uísque, mas já vi que vai virar roda de samba na Itália... E dele sul, como diz o movimento que não vingou... o sul é o meu país hehe!! Abração..

22.07.08 22:13 - Silvana

Primeiro quero deixar bem claro que eu não sou o primo que conseguia os vídeos pornôs, mas eu também os assistia...euheuheue. Caraca, cada coisa, os cachorros-quentes dos jogos do São Luiz seguem os mesmos.. Mas a melhor parte eh o sonho com a professora de Caxias andando ao lado dela..auahauhauhau. essa foi otima! ehehehhe. Mto bom velhinho. Abração!

Eduardo - 02.08.08 11:03

pois é, a vida é sinônimo de nostalgia.

maven - 17.07.08 07:28

Te encontro por lá e certamente pedir, meio rindo, meio tonta, um pouco do seu uísque.

Mel - 17.07.08 16:47

Que belo vazio este que você encontrou! Quantas memórias! Lindo o texto! Abraços

lcmanini - 21.07.08 08:41

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