Estive em Santa Maria nesses últimos dias e, para me entreter durante horas intermináveis dentro de infindáveis ônibus, comprei um pequeno livro de contos de Dalton Trevisan, lido em pouco mais de uma hora, o que me deixou sem o que fazer no restante da viagem.
É engraçado, há certos autores que você passa grande parte da vida ouvindo falar - e bem - mas nunca lê. Esse era um dos casos.
Já sabia da sua fama de misantropo, arredio a entrevistas. Já sabia o enredo e temas habituais de seus contos. Mas foi muito bom ter em mãos um verdadeiro livro e podê-lo ler com meus próprios olhos: o cara é bom mesmo.
Sucinto, seco, cruel, real. Palavras sem remorso.
Foda.
* * *
Quatro dias depois estive em Curitiba, com destino à praia para visitar alguns camaradas, tomar alguns porres e descansar a cabeça e a tensão. No busão, eis que senta ao meu lado um velhinho, de boné, lendo não sei que papel e sublinhando-o. Não puxou papo, como também eu não. Mas sabe-se lá porque me veio à cabeça que poderia ser o nosso famigerado sumido autor, indo à praia no fim-de-semana pra dar inspiração.
Não pude reconhecê-lo. Não saberia dizer se a face de um velho de boné é ou não é o velho de boné que eu imaginava que fosse. Mas supus que sim, era. E imaginei que, sendo, nunca quereria falar com ninguém sobre seus livros, capaz até mesmo de saltar pela janela se soubesse que eu sou formado em jornalismo. Por essas e outras puxei um diálogo banal com o ancião, tentando identificar algo que pudesse identificá-lo.
Falamos sobre Matinhos e as eleições locais. E ele me deu dicas sobre como achar a parada em que eu deveria descer. Nada mais.
Despedi-me e o vampiro saiu pela porta do ônibus, escondendo o rosto, em direção ao seu covil.